A cidade mal-entendida

06/08/2008


Porto Alegre vive à beira de alguns mal-entendidos. Para começar, vive à beira de um rio que não é rio. O Guaíba é um estuário, ou como quer que se chame essa espécie de ante-sala onde cinco rios se reúnem para entrar juntos na Lagoa dos Patos. Mas todos o chamam de Rio Guaíba.

A rua principal da cidade não existe. Você rodará toda a cidade à procura da Rua da Praia e não a encontrará. Usando a lógica - o que é sempre arriscado, em Porto Alegre - procurará uma rua que margeia o rio (que não é rio), ou que comece ou termine numa praia. Se dará mal. Não há praias no centro da cidade, e nenhuma rua ao longo do falso rio se chama "da praia". Finalmente, desconfiado de que a rua principal só pode ser aquela que concentra a maior parte do tráfego de pedestres no centro, você consultará a placa e lerá "Rua dos Andradas".

Mas ninguém a chama de Rua dos Andradas, chamam pelo nome antigo, Rua da Praia. Por que da praia? Ninguém sabe. Só se sabe que ela vai da Ponta do Gasômetro, que não é mais Gasômetro, até a Praça Dom Feliciano, que todos chamam Praça de Santa Casa, passando pela Praça da Alfândega, que já foi praça Senador Florêncio, mas voltou a ser Praça da Alfândega porque ficava na frente da Alfândega - que não existe mais. Confuso, você talvez entre no prédio da prefeitura para pedir satisfações, só para descobrir que entrou no prédio errado. Existe outra prefeitura, a nova, atrás da velha, que por sua vez tem na frente uma praça chamada não Porto Alegre mas Montevidéu. Na prefeitura certa talvez lhe digam para ir se queixar ao bispo, tendo que, para isto, subir a Rua da Ladeira até a Praça da Matriz, onde fica a Catedral.

Desista. Você não encontrará a Rua da Ladeira, que hoje se chama (só ela se chama, porque ninguém mais a chama assim) General Câmara, e a Praça da Matriz na verdade é a Praça Marechal Deodoro, embora poucos porto-alegrenses saibam disto.  A única vantagem de toda esta confusão é que você precisará de muito tempo para ir decifrando Porto Alegre, ao contrário do que acontece em cidades previsíveis e sem graça como Paris, Roma, etc., onde tudo tem o mesmo nome há séculos - e ir degustando-a aos poucos. Acho que não se decepcionará. Vencidos os primeiros mal-entendidos e localizada, por exemplo, a “Praça da Matriz”, você pode fazer uma visita ao Theatro São Pedro, um dos orgulhos da cidade com seu prédio em estilo barroco português e sua pequena platéia em forma de ferradura. Há quem diga que é o teatro mais bonito do Brasil.

Certamente é o mais bem cuidado. Inaugurado em 1858, esteve fechado por uns tempos e foi magnificamente restaurado para sua reinauguração há poucos anos. Da sacada do seu primeiro andar, onde ficam o foyer e o café, você pode olhar a Praça de cima. Se tiver sorte, os jacarandás estarão florindo. Do outro lado da praça estão a Catedral e o palácio do governo estadual, ou Palácio Piratini, esse no estilo neoclássico francês. Duas coisas surpreendem alguns visitantes em Porto Alegre pela quantidade insuspeitada: a arquitetura neoclássica e os jacarandás. Saindo do Theatro São Pedro você pode aproveitar para dar uma olhada na Biblioteca Pública (outro exemplo do estilo neoclássico), e principalmente uma espiada no seu Salão Mourisco, ricamente decorado. Desça a Rua da Ladeira. Está bem, a General Câmara. Você chegará ao chamado Largo dos Medeiros e a outro mal-entendido municipal. O largo tem este nome extra-oficial em homenagem a um café que tinha ali e não tem mais. Não, não se chamava Café Medeiros, os donos é que se chamavam assim. Não importa, vire à esquerda e siga pela Rua da Praia - dos Andradas! dos Andradas! - passando a Praça da Alfândega, onde todas as primaveras se realiza a famosa

Feira do Livro de Porto Alegre. Depois de uma curta caminhada você chegará ao antigo Hotel Majestic, hoje belissimamente transformado na Casa de Cultura Mario Quintana, com teatros, cinemas e salas para cursos e exposições. Vale a pena entrar para ver o que foi feito do velho hotel e ir até o Café Concerto na sua parte superior, ou então deixar para voltar lá na hora do pôr-do-sol. Um pouco mais adiante na mesma Rua da Praia, à sua esquerda, você verá a igreja Nossa Senhora das Dores, com uma grande escadaria na frente. A fachada e a escadaria são iluminadas à noite, é uma das bonitas visões da cidade.

Volte pela mesma Rua da Praia em direção ao centro. Ao chegar à Avenida Borges de Medeiros, pegue a esquerda e desça até o Mercado Público, perto da prefeitura e da já citada Praça Montevidéu, onde está a graciosa Fonte de Talavera de la Reina, um presente da comunidade espanhola à cidade. Passeie dentro do mercado e veja as suas "bancas" especializadas, como a que vende vários tipos diferentes de erva para o chimarrão. Os morangos com nata batida da Banca 43 são famosos.

O pôr-do-sol não pode ser reivindicado como atração turística de Porto Alegre, já que tecnicamente ele acontece fora dos limites estritos do município, mas saber se colocar para assisti-lo é uma das artes da cidade. O novo Café Concerto, na cúpula do antigo Hotel Majestic, com uma vista desimpedida do “rio” e do poente, já tem seus adeptos, mas o ponto tradicional dos crepusculistas é o mirante do Morro de Santa Teresa. Você precisará de transporte para ir do centro até lá e se for de táxi, para evitar outro mal-entendido, diga ao motorista que quer ir ao “Morro da Televisão”. Do mesmo mirante você terá a melhor vista da cidade, cuja topografia já foi comparada à de São Francisco na Califórnia. E verá, lá embaixo, o imponente estádio do grande Sport Club Internacional. Outro bom lugar para se olhar a cidade e o pôr-do-sol é o Morro do Turista. Para chegar lá você precisa pedir para ser levado ao Morro da Polícia.

 É o mesmo morro. Aos domingos pela manhã, boa parte da população de Porto Alegre vai ao “Brique da Redenção”, assim chamado porque fica no Parque Farroupilha. Calma. O Parque Farroupilha, um dos maiores parques urbanos do mundo, é conhecido pelos porto-alegrenses como Parque da Redenção. Ou, sucintamente, “a Redenção”. “Brique”, na língua gaúcha, é o encurtamento de “briqueabraque” e é uma feira de antigüidades em que tudo, até revista da semana passada, é considerado antigüidade. Mas em meio às porcarias assumidas, há louças e pratarias, livros valiosos, selos e moedas e principalmente muita gente vendendo, comprando ou só passeando. O parque se chama Farroupilha em homenagem à revolução do mesmo nome que os gaúchos fizeram em 1835 contra o império, proclamando a República Rio-grandense.

 Mas, embora todo mundo aqui hoje comemore a insurreição, Porto Alegre manteve-se fiel ao governo central e por isto mereceu o título de “leal e valorosa cidade” conferido pelo imperador Pedro II, e que está no seu brasão.
Outro mal-entendido.

Texto: Luis Fernando Veríssimo


14 comentários:

  1. Puxa fiz uma viagem fantática por Porto Alegre.
    Morro de vontade de conhecer sua cidade. Primeiro porque adoro frio, e por aqui não faz mais aquele friozinho gostoso que vocês tem, essa última parte da viagem me deixou curiosa, pois amo antiguidades. Mas tudo bem logo logo vou por aí e vou te conhecer pessoalmente.
    Filha, a Hevi já autorizou e mandou por eamil também, agora é por sua conta, quando você puder faz o que for melhor, que eu aprovo tudinho, e deixa lá de parceria assim quando precisar é entrar a porta est´rá sempre aberta para você, afinal, já viu filha que não as chaves da casa???
    Beijos de bom dia e que Deus abenõe você junto aos seus!

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  2. Bom dia, Du!
    Eu não conheço a cidade, mas já a vejo linda, pricipalmente por suas peculiaridades. hasuhausa.

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  3. Rô, será maravilhoso te conhecer pessoalmente!
    Pode deixar que quando chegar em casa eu entro no e-mail e vejo o que precisa ser feito, tá?


    Enferrujamento (que estranho me direcionar a alguém assim...rsrsrsrsrs)Bom dia pra você também!

    Beijão!!!

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  4. Incrível como os governantes gostam de mudar os nomes das ruas. Num seria muito mais fácil se as ruas tivessem o nome que são chamados pelo povo?

    Bjo

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  5. Excelente escolha de texto, Du!

    Quem não gostaria de ter essa capacidade ímpar de lidar com as palavras que tem o nosso grande Luís Fernando Veríssimo?
    Só mesmo ele para nos ciceronear neste passeio tão bem humorado pela nossa cidade mais amada.

    Um beijo, querida!

    Urbano

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  6. Pois é pessoas da Confraria, tudo seria mais fácil, inclusive para os turistas! Obrigada pela visita!

    Eu adoro o Luís Fernando Veríssimo Urbano, A-D-O-R-O! \O/

    Beijos

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  7. Olha, Du! Ainda sou meio bisonho no manejo de blogues, por isso vou postar aqui também a resposta ao comentário que me fizeste lá no http://umasensataparanoia.blogspot.com/. Se estiver fora da etiqueta da blogosfera, depois tu me avisa, tá!?

    ****************

    Obrigado, Moça!

    Engraçado como a maioria das pessoas (inclusive eu) tem uma tendência a ver mais beleza na tristeza do que na alegria...
    Vai ver a gente se identifica mais com a melancolia porque a vida é mais triste do que alegre, né!? Senão estaríamos no Paraíso e não na terra. (rs)

    Também não gosto da verificação para poder publicar o comentário, mas acho pior a moderação. Pelo menos, com a primeira opção, o comentário aparece na hora. (rsrs)

    Volte sempre, etérea moça dos meus sonhos! Vou ficar te esperando na janela... (rs)

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  8. Está bem Urbano, falamos depois...rsrsrsrs

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  9. Olha eu aqui de novo, agradecendo outra visita tua! Desta vez ao poema "Paradoxo".

    Fico muito agradecido pelas tuas palavras, Moça!
    É meu o privilégio de poder compartilhar este poema contigo.

    A casa é tua! Sempre!

    Um beijão e um grande abraço com braços estreitos e carinhosos!

    Urbano

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  10. Puxa! Acabei esquecendo...
    Lembra da revista virtual que te falei? Aquela em que eu sou colaborador? Já saiu! Entre outras matérias interessantes, tem o 1º de uma série de artigos que estou escrevendo sobre o Cartola, em homenagem ao centenário do nascimento dele em outubro. Como sei do teu interesse por boa música, pensei em ti na hora. Gostarias de receber um exemplar? É só avisar.

    Beijão, querida!

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  11. Oba, quero sim! \o/
    Obrigada.
    Beijo, Urbano!

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  12. Uma verdadeira viagem virtual pela cidade. Meu colega, professor de Filosofia, gremista roxo, já tinha mencionado esses contrastes, especialmente o fato do Guaiba não ser um rio, como muitos mencionam. E vendo suas fotos me bate uma vontade de seguir para o sul!!!
    E também adoro ler os textos do Veríssimo!
    Belo post, meu anjo!!!

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  13. Aaaah, meu próximo destino é a capital gaúcha, assim espero! \o/

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  14. E quando o Nando for, eu vou com ele... Ai vai virar bagunça!!!!
    Beijoooo

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