Desespero

14/11/2010


Renata estava em seu quarto sentada em frente à máquina de escrever, bebendo vinho numa taça tão grande que quase cabia seu rosto delicado dentro. Ela adorava aquela taça, ainda mais cheia daquele vinho tinto seco da melhor qualidade que ela ganhara de um cliente no seu aniversário.

Olhava para a máquina e o papel em branco sem saber ao certo o que escrever. Miguel de Cervantes, com uma das páginas de seu "Novelas Exemplares"aberta, não era suficiente para lhe dar a devida inspiração:

"Tal qual o sol que assoma atrás da baixa montanha,
que de repente aparece
e que ao chegar escurece nossa vista e a ofusca,
 Tal qual o belo rubi
que não obriga o carcoma,
o teu lindo rosto,
Aja,
é a dura lança de um deus
 que fere minhas entranhas"

Renata só conseguia pensar em Carlos e em suas últimas palavras: "Quero que você seja muito feliz, você é muito especial pra mim e merece toda a felicidade do mundo que eu, infelizmente, não poderei te dar".
Como alguém que ela ainda amava tanto podia falar uma coisa daquelas com tanta certeza e convicção? Como alguém que já disse inúmeras vezes que a amava com tanta paixão, conseguia desejar que ela fosse feliz com outro?
Ela gostaria de escrever para Carlos um tanto de desaforos e afogar suas mágoas em ofensas, mas os versos de Rimbaud não lhe saiam da mente, os mesmos versos com o qual ele lhe presenteara antes de partir... "não podereis jamais atirar o amor pela janela..."
O que Renata poderia escrever para Carlos num momento assim? Melhor seria não escrever nada, esquecer tudo!
Então, num impulso de fúria e já tendo bebido mais da metade da garrafa de vinho, arrancou o papel da máquina e o amassou como se estivesse destruindo suas lembranças. Só que ao invés de jogar a bola de papel longe, jogou sua taça, movida pelo instinto da dor e da raiva que sentia de si mesma naquela hora. Decidiu que iria arrancar Carlos do seu coração da mesma forma como arrancou aquele papel da máquina... Mais vinho, agora no gargalo da garrafa... lágrimas... mais vinho... mais lágrimas...
No meio do desespero de seu coração, Renata caiu ajoelhada no chão elevando as mãos para o alto implorando a Deus que a ajudasse a esquecer seu amor. E ali mesmo adormeceu.
Acordou horas depois sentindo gosto de sangue na boca, o rosto cortado pelos cacos da taça quebrada... Fundo do poço. Hora de reagir, como a fênix ressurgindo das cinzas...

"Quando somos muito fortes - quem recua?
Muito alegres - quem cai de ridículo?
Quando somos muito maus, que fariam de nós?
Enfeitai-vos, dançai, ride:
não podereis jamais atirar o amor pela janela."

(Arthur Rimbaud)
[Du]

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9 comentários:

  1. Que triste Du... Eu nem curto muito esse tipo de história pois eu sempre fico imaginando as cenas.. Muitas vezes, alias, me vendo nas cenas... Então, eu nem gosto de pensar nessas coisas... Mas esse tipo de história é bem verdadeira, infelizmente... E, assim como na história, eu não sei poqe acontece e assim como ela, eu não entendo o que acontece para se chegar a esse ponto, se, realment,e há amor entre os dois...

    Bjus!

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  2. As dores do coração são sempre as mais dificeis de se superar... lia na super interessante uns tempos atras uma materia q falava q a dor de um coração partido é muito maior do que de um braço ou perna quebrada, mas nem precisava ler isso p/ acreditar.... quem ja vivenciou dessas dores compreende. Mas a questão mesmo é supera-las, tudo nos surge como insentivo a irmos alem do q acreditamos ser capazes... como dizem, depois da noite escura, vem osol na alvorada!!! Abraço e ótima postagem Du!!!

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  3. Lindo, forte, intenso e triste!!

    Seria tão fácil se pudéssemos arrancar a dor do nosso peito como arrancamos um papel da máquina de escrever. Seria tão mais fácil, esquecer e não sofrer...
    Mas assim como a fênix temos que ressurgir das nossas cinzas a cada dia... essa é a fortaleza da vida!!!

    Beijos, Florzinha!!!
    Tá tudo bem?!!
    Tô com muita saudade de vc

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  4. Du. O diário virou fantasma virtual. Se quiseres podes tirá-lo daqui.
    Tem épocas que são muito tristes mas, ainda bem que como ondas passam e o texto é antigo mesmo.
    Beijos!
    Iza

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  5. Meu Deus! Eu já fui Renata, com uma taça de vinho na mão, lágrimas nos olhos e Alanis fazendo companhia. Seu texto fala de mulher real, dor humana e situação comum, mas só você pra encaixar tão bem outros autores e seus pensamentos. Só você, Duzinha!

    Ai, como e tava com saudade de ler você!!!
    Um beijo bem grande!!!
    =*****

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  6. Um texto forte, cheio de emoções. Bravíssimo.
    e lindo estes versos de Rimbaud.
    Uma bela quarta.
    Beijos!
    Cleo

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  7. Du, ao invés do vinho na mão, seguro uma barra de chocolate de qualquer tipo... Sempre com a solidão, minha eterna companheira ao meu lado!!!
    Belo texto!!
    Beijos!!!

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  8. Lindo o texto para uma música linda...

    Eu posso confessar uma coisa aqui? não é confessionário, mas é que aqui eu me sinto em casa e no meio de amigos, então tudo bem. Eu já quis ter uma garrafa de vinho por perto para, quase que literalmente, afogar a dor também... Mas a vida é assim mesmo, o importante é nunca perder a esperança do recomeço. A fé no novo tempo (como o Vidal falou essa semana), é isso que deve nos mover a seguir em frente, sempre.

    Beijinhos, Du!

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  9. Muito triste :(
    Me transporto ao mundo da personagem, suas dores são minhas de tão gritantes são as palavras.

    lindo dia flor querida
    beijos

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