segunda-feira, 6 de julho de 2009

A indiferença nossa de cada dia...


Nem Assim

Quem dera eu
ser egoísta, narcisista
ter a linguagem dos maus
fugindo da felicidade
me arremessando
para o lado da desgraça...
Quem dera eu,
ser masoquista, anarquista
odiar o mundo todo, a vida
afugentar os pássaros
destruir as flores...
Quem dera eu,
ter um coração de pedra
e ferir com um olhar
quem por mim passar
só pra você perceber que eu existo
e, ao menos,
me odiar.
Mas,
nem isso...
[Du - poeminha de 1990]

O que é indiferença?
Seria um desvio de comportamento, um costume, uma forma de sobrevivência, um mecanismo de defesa, de resistência, ou conseqüência do egoísmo e do medo? O fato é que todos nós, uns mais outros menos, somos indiferentes, "passamos ao largo" de muitas coisas, realidades, fatos e pessoas, em algumas situações, até de nós mesmos.A indiferença tem um poder devastador. Ela é a companheira doentia do dominador e opressor, também dos que preferem as desigualdades, a violência, o ódio e a morte. Os indiferentes, de uma forma ou de outra, ferem, rejeitam, excluem, matam. Está correta a conclusão: o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença.
(Guilherme Lieven)


Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isso: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar... vê, não vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e, às vezes, lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia, o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Sua cara, sua voz, como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia, no seu lugar estivesse uma girafa cumprindo o rito, pode ser que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas, há sempre o que ver: gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que um adulto não vê., pois tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho, marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige muito. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Autor da fotografia: Danilo Vieira

13 comentários:

Luana! disse...

O.o
ontem - sábado, tive vontade de postar um texto sobre uma coisa subversiva à indiferença: a diferença!
ha uma pessoa q eu adoro mto, q sempre me socorre qdo eu preciso. mas nem sempre q eu preciso, eu faço o favor de pedir socorro a ela, saca? por questão de "consciência", de saber q cada um tem a sua vida, mas sempre me coloco à disposição de ajudá-la sempre q ela precisar.
contudo, eu precisei inestimadamente dela ontem. aliás, precisei de uma coisa minha, q estava c ela, e eu já havia dito q iria querer de volta a tal hora. e nada dela aparecer.
de repente, fui tomada de uma angústia, de uma raiva e comecei a olhar todos em voltar e a imaginar o q se passava na cabeça e nas vidas de cada uma. havia uma criança sentada num banco e eu acho q era trombadinha. depois de imaginar a vida dessas pessoas, fiquei imaginando pq a gente sempre diz: "respeite a diferença do outro"? afinal, pq nós não somos todos iguais, de preferência, todos iguais a mim. sim, eu pensei igual a mim, pq nós somos egoístas e sempre achamos q estamos certos e nos tomamos por referência como eu me tomei. em fraçoes de segundo, tentando me desvelar de tao grande pecado [querer ser a justa, idônea e perfeita], lembrei q o q gerou toda a análise foi exatamente a não compreensão do outro. se a pessoa sempre me socorre e, naquela hora nao me devolveu o q era meu, certamente havia acontecido algo. e qtas vezes será q tb falhei c ela, mas ela nunca nem gritou comigo. e, então, me voltei à "consciência" do quao somos indiferentes até ao q somos, ao q falhamos, qto mais aos q nos rodeiam.
a nossa indiferença é q não nos faz diferentes.
=/
aff!
era pra eu ter feito um post, e nao ter comentado isso aqui.
a propósito, "poeminha" é bastante depreciativo. POEMÃO!
rss.

6 de julho de 2009 01:04
Roberta.rj disse...

Adorei o post. Du, eu acho que indiferença é tudo aquilo que está descrito no teu post, mas o pior mesmo é quando vc conhece uma pessoa, ela é extremamente presente e atenciosa, e aos poucos vai se tornando indiferente, fria e ausente.Por ser, além de tudo dissimulada. E tem muitagente assim por aí.
Eu,sinceramente não me considero indiferente,a indiferença é realmente uma coisa que me incomoda muito no ser humano.
É egoísmo demais...
Um beijo e bela reflexão seu post.
Fique com DEUS.
Muita LUZ,AMOR,PAZ e ILUMINAÇÃO sempre pra vc.

6 de julho de 2009 07:15
Márcia(clarinha) disse...

Du querida,
carregamos a indiferença pois somos atropelados pelas tantas coisas que acontecem ao nosso redor, não damos conta de assumi-las, de torna-las prioridades, de trazê-las para nosso mundinho já tão conturbado, assim nos tornamos indiferentes por necessitude, uma forma de dizer[erradamente]que não tô nem aí porque nada posso fazer...
Triste esse sentimento que faz parte do ser humano, mas o que posso sentir ao ver um menino dormindo ao relento, além de muita angustia e pena?
Levá-lo pra casa, chamar autoridades, falar com os mais velhos que o colocaram ali?
Nada querida, nada posso fazer a não ser balançar a cabeça e seguir em frente, essa é a realidade.
Direitos humanos e Ong's fajutas existem aos montes, mas solução? Nenhuma.
Seu poema é lindo demais, minha poetinha querida ;)

linda semana
beijos

6 de julho de 2009 07:39
Vanilla disse...

Du...
Muito bom esse tema!
Eu, às vezes, me dou conta disso, tudo que faço muito rapidamente (do cotidiano) acabo por esquecer e fico naquela, será que travei o carro?
Será que é essa rua? Não lembro do que tem em determinado lugar, mesmo passando por ele todo dia, um detalhe qualquer, não é tão importante, mesmo que eu tenha contato com ele todo dia!
Isso me entristece, parece que sou alienada!
O último texto é perfeito, temos que ver como uma criança!
Nada escapa aos olhinhos atentos de um serzinho que ainda não tem a malícia do mundo adulto!
Boa semana para vc!
beijinhos

6 de julho de 2009 09:56
Mário e Cris disse...

Oi Du,
Tudo bem?
Muito bom esse seu post( aliás,como todos são), por tratar de um tema que sempre fere muito o ser humano,a ndiferença...esse sentimento frio, acompanhado da banalidade e da falta de solidariedade para conosco mesmo. Acho muito triste a indiferença que a cada dia toma mais conta dos sentimentos humanos.
Uma boa semana para você.
Bjos,
Cris

6 de julho de 2009 11:56
Juca disse...

Só entrei pra fazer um "mea culpa"!

6 de julho de 2009 13:53
Lunna disse...

Diferença...
Eu adoro essa palavra porque já imaginou se só existisse semelhanças? Que chato seria o mundo, as pessoas, as coisas todas... Seria um emaranhado de de nada. Tudo igual. O horizonte seria aquela coisa repetitiva e já notou como ele se diferencia a cada novo olhar?

Ps. Eu adorei o poeminha. Viajei aqui com ele...

Ps2. Adorei a música que está tocando aqui. Ela vai comigo agora. Beijos e tenha um lindo dia, uma linda semana!

6 de julho de 2009 13:53
Amigao disse...

A indiferença é o pior dos sentimentos.
E muitos vezes nem sabemos que temos este sentimento.O é um perigo.

Du eu desejo uma excelente semana pra você.

Beijão do amigão

6 de julho de 2009 14:38
disse...

A indeiferença é um dos piores sentimentos que podemos carregar conosco.
Mas como acabar com todo essa realidade???
Penso que se cada fizesse o bem pelo para aquele que está mais perto o mundo não estaria como está.
Sabe a história da andorinha, pois é deveríamos pelo menos tentar ser andorinhas.

Beijinhaos e beijinhos de uma linda e maravilhosa semana pra ti, minha filha amada.
Espero que estejas bem melhor.
Deua te guie sempre e sempre!

6 de julho de 2009 17:21
Letícia disse...

Du,

Não consigo ser indiferente. Talvez, algumas vezes, eu seja. Mas por estar conformada mesmo. Essa cegueira dos dias. Mas eu me policio porque indiferença, em muitos casos, é um mal terrível.

E tenho lido seu blog e gosto muito desse tom existencialista.

Beijos.

6 de julho de 2009 20:47
crazyseawolf disse...

A violência, a pobreza e a fome virou lugar comum especialmente nas cidades grandes. Não é indiferença, é a conformidade da sociedade que já não tem mais esperanças numa mudança real e imediata.

6 de julho de 2009 22:37
NANA disse...

Eu fiquei tão sem saber o que comentar.
Qualquer coisa que eu escreva vai ficar redundante.
Eu concordo com tudo, ok?

A indiferença é mesmo o contrário do amor. Mas a propósito, será que também não somos indiferentes em algum momento?

Beijos, minha florzinha! =)

8 de julho de 2009 13:11
Natália disse...

Duzinha, agora eu fiquei que nem a Nana: achando que qualquer coisa que eu vá comentar vai parecer redundante, ainda mais depois dos comments da turma aqui encima.

Mas, então, eu nunca tinha pensando na indiferença como contrário do amor. Acho que pode até ser, mas muitas outras vezes optamos por ser indiferentes, ou porque nos magoaram demais ou porque ficamos cansados de expor nosso coraçãozinho. Essa indiferença é mais uma defesa pessoal mesmo.

Já essa indiferença de quem passa todo dia pelas mesmas coisas/pessoas, mas não enxerga... isso aí é um dos piores males da sociedade pós-moderna, resultado do individualismo louco a que, de certa forma, somos obrigados a ceder se quisermos sobreviver.

Então, eu desejo que consigamos nos enxergar e sobreviver ao mesmo tempo.

Um beijo enorme, Duzinha!
E uma ótima segunda-feira (com todo o meu amor pra tu)

13 de julho de 2009 07:53