9 de out de 2012

Fragmentos de Mia Couto


Tinha tanto medo de solidão
que nem espantava as moscas
Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem voz nem nascente.
A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto.
Cada um descobre o seu anjo
tendo um caso com o demônio.

Identidade
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Destino
à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos
vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso
conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso
agora
que mais
me poderei vencer?

Horário do Fim
morre-se nada
quando chega a vez
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos
morre-se tudo
quando não é o justo momento
e não é nunca
esse momento

Ser, parecer…
Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida
Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.

Biofagia
É vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.
Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.
Até chegar ao fim da voz.
Até ser um corpo sem foz.

O Poeta
O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.
A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.
Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.
Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.
Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.
Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

O beijo e a lágrima
Quero um beijo, pediu ela.
Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.
Entusiasmado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.
Mas ela o fez parar.
Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.
Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.
Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

Nocturnamente
Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo
Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio
Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces

Natural da Beira, Moçambique, o galardoado escritor Mia Couto é considerado um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos de língua portuguesa. A escrita tem sido uma paixão constante, desde a poesia, na qual se estreou em 1983, com A Raiz de Orvalho, até à escrita jornalística e à prosa de ficção. Vencedor de vários prêmios, tem a sua obra traduzida em alemão, castelhano, francês, inglês, italiano, neerlandês, norueguês e sueco.

Imagem daqui

18 comentários:

  1. Tudo bem, Du?

    Gosto da poesia de Mia Couto. Esses fragmentos são exemplos da forma como ele trabalha vísceralmente as palavras.

    Abraços e bom feriado.

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  2. Ah, sim, eu li o post inteiro, mas não sei o que comentar.

    Beijão do amigão!

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  3. Mai uma bela apresentação. Não conhecia. E ele é lindo por dentro e por fora.
    Beijos filha bom feriado!

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  4. Olha.. e nao é que a tal "A Raiz de Orvalho" tem a minha idade...rs..


    Tudo bem com vc querida??

    Bjos

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  5. Oi, Du!
    Nem sabes... eu andava sumida por causa das provas na faculdade mas, sempre de olho no blog.

    Li e gostei destes fragmentos!

    Beijos!

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  6. Devo admitir que este espaço é muito bacana.

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  7. Oi, Du! Quanta saudades do seu barraco tb rosa! E cheguei num momento de deleite... Quantas poesias lindas! Esse moçambiquense é ótimo; como vc descobre isso, heim? Ando tão por fora da literatura..=(
    Roubei essa parta para mim: "Cada um descobre o seu anjo
    tendo um caso com o demônio". Achei a minha cara...rs Meio bruxas, meio fada! Beijooooca, Du!!!!

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  8. Oi Du! É lindo, mas confesso que não conheço Mia Couto. Bjks

    Ah! Postei neste domingo três sorteios que estão roalando na blogosfera... vai lá participar. Bjks

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  9. Du também é cultura \0/.
    Já aprendi/conheci sobre vários escritores nessa série "fragmentos de..." adorei Du.

    E eu estou um pouco sumido né, é porque estou me acistumando ao tirmo da facul, as aulas recomeçaram, mas prometo voltar mais tranquilo na próxima semana.

    beijo!

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  10. a poesia dele eh linda demais.


    e por aqui..
    tenho q dizer q adorei o q vi..
    ;*

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  11. Boa seleção, Du!! Linda a forma como ele escreve prosa como quem faz poesia. Beijus

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  12. Oi querida

    Era um estranho para mim.
    Belos são seus poemas.
    Gostei.
    Bom tu trazer coisas novas, que ainda não conhecemos.

    Un beso

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  13. Oi
    amei seu blog!!É lindo!!
    Já sou seguidora!
    Beijos*

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  14. Eu simplesmente amei o poema "Identidade". Li várias e várias vezes e acho que eu até encontrei um pouco de Campos em seus versos. Não?
    Beijos moça

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  15. Mia Couto é tido de bom. Já li vários livros dele.
    Saudações Florestais !

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