Quando olhei pra você como quem pede socorro porque não entendia nada do que estava acontecendo, você simplesmente sorriu, virou as costas e saiu caminhando com seus passos irritantemente lentos e decididos, sem olhar uma única vez para trás. Eu faria o mesmo se pudesse, mas fui na direção oposta e corri, corri, corri ... o coração acelerado querendo rasgar o peito, rosto vermelho e respiração ofegante. Até que cansei.
O trem parou na hora errada e eu subi mesmo assim. É o que faço sempre. Não sei escolher a via. Não sei vasculhar o pior nas pessoas e acredito fácil em mentiras bobas. Mas por outro lado, enxergo o que ninguém quer ver e vejo e sinto tudo antes de acontecer.
Nunca mais sentei embaixo daquelas árvores nem voltei naquele lugar. Porque eu não posso e a culpa continua sendo somente sua.
E agora, redescubro minhas virtudes e questiono valores antigos. Como uma mudança de textura, algo conveniente. Todas as vidas em uma só e todo o tempo que foi perdido, aflorando em idéias novas e sem sentido algum. Pensamentos reciclados na porção confusa do ser que habita em ruas estranhas.
É isto, sou uma estranha. Tão comum que passo incólume e despercebida na multidão. E o que eu faço com esta vontade de não fazer nada que não passa?
Não responda. Não fale comigo se não me conhece, porque o mau humor aflora e me vingo de todos os silêncios contidos. E se me conhecer um pouco, vai esquecer tudo e me deixar só com meus pensamentos!
É hora de apagar a luz e dormir ajuda a esquecer. A cortina desceu faz tempo, mas isto já não é mais novidade.
Azar de quem fica sem entender.
Eu também não entendo.
[Du]
[Republicando e mantendo os comentários originais]
Não entendoIsso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.[Clarice Lispector]






19 comentários:
Clarice mexe comigo ...
"Não entendo
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender."
Também postei sobre estas reticencias da vida.E o que eu faço com esta vontade de não fazer nada? Boa pergunta e muitas reticencias.
Mas eu tenho a impressão que isso tudo tem data pra acabar.Os dias estão contados. 26.27.
Beijão do amigão!
Du, muito lindo este seu texto.. mas há uma dor, uma tristeza nele né...
Espero que neste palco da vida, ainda possamos vê-la brigar e assim aplaudindo de pé estaremos.. tanto quanto agora... pois já brilha em nossas vidas...
Bjos
querida,
belo texto.
e são nas palavras que a catarse se concretiza.
beijos, denison
Hum... continuo gostando de tudo que vc escreve sempre rs
Beijos
Se gostei??? Amei, serviu como uma luva para alguns fatos...
beijos
"Não sei escolher a via. Não sei vasculhar o pior nas pessoas e acredito fácil em mentiras bobas."
Tá falando de mim, Duzinha? :D
beijo, coisa amada do meu coração
Du querida
Há dias assim. Terriveis. Dias que não chegam ao fim e quando chegam, parece que ainda nem começaram. A cabeça num rodopio, os nervos miudinhos a aflorarem a pele.
Dias como o de hoje em que só queria...Não sei. Nem sequer sei o que queria.
Talvez que tudo ficasse suspenso. Como os jardins da Babilónia em jeito de maravilha. Como quando em crianças inspiramos muito antes de mergulhar e nem sabemos o que aconteceu, como se não existissemos lá em baixo. Apenas sabemos que estivemos debaixo de água quando os olhos aflitos e a respiração a encher de rompante os pulmões, quando já à tona de água.
Como um inspirar de vida e depois, nada.
Ir ali só para morrer um bocadinho e depois voltar. Sabes como é?
Talvez que o mundo parasse. O relógio ficasse quieto, que ao meu redor tudo ficasse mudo.
Para não ouvir. Para não sentir. Para não falar. Para não pensar. Não sorrir. Não amar.
Nada.
Ficar encolhida num canto sem medo de nada porque nada mexe, nada avança, nada existe.
Quieta apenas.
Dias em que pudesse por momentos, não viver.
Hoje, não me apetece viver.
Sem que isso signifique morrer ou querer morrer. Deve soar-te estranho. Melhor, acho que é bem familiar pra ti.
Mas hoje, nem sequer quero explicar.
Besos
( Linda, apesar de tudo, não seja tão dura contigo tá. Ninguem merece lágrimas tão puras.)
Muito BONITo...
...AMEi
Apesar de triste...
"É hora de apagar a luz e dormir ajuda a esquecer"
Nós sempre apagamos a luz, tentando apagar também nossos pensamentos
Menina!!
Que post bonitinho!!!Vc está de parabéns,tudo aqui é muito lindo!!!Amei!!!Obrigada pelo carinho de sempre.Beijos
E são as mentirinhas bobas, aparentemente inocente que derruba o meu castelo dos sonhos... :'(
Te amo, florzinha!!!
Beijos
Adorei!
Du,
Um texto muito sensível, querida... adoro ler-te por aqui!
Bom fim de semana!
Bjs.
Olá!!!
A parte "Não sei vasculhar o pior nas pessoas e acredito fácil em mentiras bobas" .. muito perfeita, assim como eu acredito que muitas pessoas se identificaram, lindo texto!....Super bjuuu..
Adoooooooreeei *--*
oi Du, amei esse post.
Clarice é uma sábia, ela já disse:
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
Bj ;*
lindo! vc conseguir exprimir com palavras como me sinto, de uma maneira como nunca consegui fazer.
Amiga, tem horas que só precisamos mesmo é desabafar e pôr tudo que nos incomoda pra fora, como se tivesse um grito preso na garganta louco pra ser expulso.
Também tem horas em que nos sentimos completamente estranhos à nós mesmos, como se habitássemos um corpo que não é nosso. Entendo muito isso, porque também não me entendo. Não me sei.
Só sei que sinto em excesso, tenho essa sensibilidade tão à flor da pele que parece q vou levitar....assim como tu tbm tem.
Todos nós passamos por momentos ruins na vida, alguns tão difíceis que parece que não há saída, que nunca iremos tomar o rumo de volta pra casa. Mas sempre há uma saída, sempre. Temos que acreditar na gente. Pessoas do bem, como tu, minha amada, sempre têm a chance de encontrar novamente o caminho. E eu estou aqui pra caminhar contigo. Sempre.
Te amo, amiga.
Flávia.
Texto perfeito!
bjss
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