terça-feira, 24 de novembro de 2009
Fragmentos de Anna Akhmátova
Aprendi a viver com simplicidade, com juízo, a olhar o céu, a fazer minhas orações, a passear sozinha até a noite, até ter esgotado esta angústia inútil.Enquanto no penhasco murmuram as bardanas e declina o alaranjado cacho da sorveira, componho versos bem alegres sobre a vida caduca, caduca e belíssima. Volto para casa.Vem lamber a minha mão o gato peludo, que ronrona docemente, e um fogo resplandecente brilha no topo da serraria, à beira do lago. Só de vez em quando o silêncio é interrompido pelo grito da cegonha pousando no telhado.Se vieres bater à minha porta, é bem possível que eu sequer te ouça.
LENDO "HAMLET"
I
No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pé e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste;
"Então vai para o convento ou casa-te com um idiota..." Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu lembro dessas palavras: deixem que elas flutuem por cem séculos como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.
II
E como por engano eu disse:
"Tu..."
Iluminou-se a sombra com o sorriso suave de meu amado. Esse é o tipo de deslize da língua que faz com que todo mundo fique te olhando...
Mas eu te amo, como quarenta meigas irmãs.
A MULHER DE LOT
“A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal.” Gênesis
E o homem justo seguiu o enviado de Deus, alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher: "Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar as rubras torres da tua Sodoma natal, a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas, as janelas vazias da casa elevada onde destes filhos ao homem amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -, seus olhos nada mais puderam ver. E converte-se o corpo em transparente sal e os ágeis pés no chão enraizaram-se.
Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá quem deu a própria vida por um único olhar.
NO LUGAR DE UM EPÍLOGOE lá, onde os sonhos formavam-se para nós dois - sonhos não muito diferentes iam ficando guardados. Vimos o mesmo sonho, e havia força nele, como a chegada da primavera.
Ele gostava de três coisas neste mundo:o coro das vésperas, pavões brancos e mapas da América já bem gastos.Não gostava de crianças chorando, nem chá com geléia de framboesa e nem de mulheres histéricas ...e eu era a mulher dele.
Vinte e um. Noite. Segunda-feira. A silhueta da cidade na neblina. Algum desocupado inventou essa história de que há amor no mundo.
E por preguiça ou por tédio, todos acreditaram nele e assim viveram: esperando encontros, temendo ruturas e cantando canções de amor. Mas a outros será revelado o segredo e sobre estes recairá o silêncio...
Eu tropecei nele casualmente e, desde então, sinto-me como se estivesse doente.
Último Brinde
Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
(1934)
MÚSICA
Algo de miraculoso arde nela, fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar ela ainda estará comigo no meu túmulo, como se fosse o canto do primeiro trovão, ou como se todas as flores explodissem em versos. (1958)
TREZE VERSOS
E finalmente pronunciaste a palavra não como quem se ajoelha,
mas como quem escapa da prisão e vê o sagrado dossel das bétulas através do arco-íris do pranto involuntário.
E à tua volta cantou o silêncio e um sol muito puro clareou a escuridão e o mundo por um instante transformou-se e estranhamente mudou o sabor do vinho.
E até eu, que fora destinada da palavra divina a ser a assassina, calei-me, quase com devoção, para poder prolongar esse instante abençoado. (1963)
À NoiteA música no jardimtinha dor inexplicável.Um cheiro de maresiavinha das ostras no gelo.Ele disse: "Sou fiel!"e tocou-me no vestido.Tão diverso de um abraçoera o toque dessas mãos.Como quem acariciaum gato ou um passarinho,sorria, com os olhos calmos,sob o ouro das pestanas.A voz triste dos violinoscantava, em meio à névoa:"Dá graças a Deus que enfimestás a sós com o amado".(1913)
Anna Akhmatova (Анна Ахматова, Анна Андреевна Горенко, 23 de Junho de 1889 - 5 Março 1966) é o pseudónimo de Anna Andreevna Gorenko, uma das mais importantes poetas acmeístas russas.)Começou a escrever poesia aos onze anos de idade, mas o pai, um engenheiro naval, temia que Anna viesse a desonrar o nome da família, convencido de estar a adivinhar hábitos decadentes associados à vida artística. Assim, assinou os seus primeiros trabalhos com o primeiro nome da sua bisavó, Tatar.Apesar do seu pai ter abandonado a família, quando Anna contava apenas dezasseis anos, conseguiu prosseguir os seus estudos. Portanto, não só estudou no liceu feminino de Tsarskoe Selo e no célebre Instituto Smolnyi de São Petersburgo, como também no Liceu Fundukleevskaia de Kiev e numa faculdade de Direito, em 1907.A obra de Akhmatova compõem-se tanto de pequenos poemas líricos como de grandes poemas, como o Requiem, um grande poema acerca do terror estalinista. Os temas recorrentes são o passar do tempo, as recordações, o destino da mulher criadora e as dificuldades em viver em escrever à sombra do estalinismo.Akhmatova nasceu perto de Odessa. Os seus pais separaram-se em 1905. Ela casa-se com o poeta Nikolaï Goumilev em 1910. O filho deles, nascido em 1912, é o historiador Lev Goumilev.Na generalidade, a sua obra é caracterizada pela aparente simplicidade e naturalidade e pela precisão e clareza da sua escrita.
Morreu em 1966 em Leningrado.
Biografia







7 comentários:
Gostei demais de tudo!
24 de novembro de 2009 13:38Muito, muito bom!
Um bjo grande, Du.
:)
Nossa Du !!!!!
24 de novembro de 2009 16:59Que lindo amiga !!!
Que bom poder ter vc como minha amiga, MESMO.
Sinto-me lisonjeada com tanto mimo.
Simplesmente maravilhosa as poesias de Anna e da maneira como tu as colocou ficou mais bela ainda.
Mas esta maravilha não é para mim mas sim para todos que apreciam a beleza da poesia.
Penso que a poesia é o registro dos melhores e dos mais felizes momentos das melhores e mais felizes mentes.
Sem palavras pra agradecê-la, minha amiga querida. Feliz mesmo.
Muitíssimo obrigada
Besos y cariño
Pra ti esta:
Último Brinde
Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
Nossa quanta beleza ! Coisas tão antigas e tão atuais aina. Não a conhecia. Adorei tudo! Parabéns pelo post e pela cultura. A gente sempre aprende aqui. bjão
24 de novembro de 2009 17:04Olá!
25 de novembro de 2009 16:40passei por aqui!!!
=D
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Uma boa semaninha para vc, meu amigo(a)!!!
Que sua presença,
seja sempre um sopro de ar puro
para o ambiente em que estiver.
Que sua pessoa seja digna de confiança,
mas com um toque de criatividade.
Disponível, mas sem esquecer-se de si.
Incansável pelo ideal,
mas satisfeita com a vida.
Ligada aos amigos,
mas capaz de pensar distante.
Não conte os anos que já viveu,
mas ame a vida simplesmente.
Ocupe-se intensamente no que faz,
sem pensar no que poderia ter feito.
E se um dia já não puder seguir
fisicamente o ritmo habitual,
descubra mil outras coisas para fazer,
outros mundos para explorar
e pessoas para amar, mantendo a paz e o entusiasmo no espírito.
Assim, muitos buscarão a sua amizade,
pela sua alegria contagiante,
pela sua inspiração que sugere,
e, sobretudo pelo exemplo que proporciona
de uma vida plenamente realizada.
(autor desconhecido)
COM CARINHO...Bjoooo
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___ \\|//ღViViAn\\(^_^)// Sbrussi
Olá linda menina, voltei.... como é bom passar por aqui e receber carinho para o coração, para a alma, beijos em seu coração!
25 de novembro de 2009 18:50Rosana
Não conhecia esta poeta ( não gosto muito do termo poetisa )
25 de novembro de 2009 23:04Acho que o que há de mais belo em um poema é a sua cumplicidade com quem o lê. Assim estes fragmentos são perfeitos.
Levar a todos o belo, o conhecimento, o afetivo, é o que justifica espaços como este.
Parabéns.
Voltarei outras vezes.
Que lindo, Duzinha!
10 de dezembro de 2009 23:37Como tu sabe, eu sou mais prosa que poesia, logo, eu não conhecia essa mocinha aí. Na verdade, eu nunca nem tinha ouvido falar dela.
É por isso que eu gosto de vir aqui, sempre tem alguma coisa nova pra aprender e algumas palavras bonitas pra apreciar.
beijo, Du
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