29 de mai de 2011

Fragmentos de Anna Akhmátova

Postado por Dulce Miller às 15:29

    Aprendi a viver com simplicidade, com juízo, a olhar o céu, a fazer minhas orações, a passear sozinha até a noite, até ter esgotado esta angústia inútil.
    Enquanto no penhasco murmuram as bardanas e declina o alaranjado cacho da sorveira, componho versos bem alegres sobre a vida caduca, caduca e belíssima. Volto para casa.
    Vem lamber a minha mão o gato peludo, que ronrona docemente, e um fogo resplandecente brilha no topo da serraria, à beira do lago. Só de vez em quando o silêncio é interrompido pelo grito da cegonha pousando no telhado.
    Se vieres bater à minha porta, é bem possível que eu sequer te ouça.                               
      LENDO "HAMLET"                   
      I
      No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pé e, por trás dele, brotou um rio azul.
      Tu me disseste;
      "Então vai para o convento ou casa-te com um idiota..." Só os príncipes falam sempre assim.
      Mas eu lembro dessas palavras: deixem que elas flutuem por cem séculos como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.                 
      II
      E como por engano eu disse:
      "Tu..."
      Iluminou-se a sombra com o sorriso suave de meu amado. Esse é o tipo de deslize da língua que faz com que todo mundo fique te olhando...
      Mas eu te amo, como quarenta meigas irmãs.
                A MULHER DE LOT          
                “A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás e transformou-se numa estátua de sal.” Gênesis
                E o homem justo seguiu o enviado de Deus, alto e brilhante, pelas negras montanhas.
                Mas a angústia falava bem alto à sua mulher: "Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar as rubras torres da tua Sodoma natal, a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas, as janelas vazias da casa elevada onde destes filhos ao homem amado".
                Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -, seus olhos nada mais puderam ver. E converte-se o corpo em transparente sal e os ágeis pés no chão enraizaram-se.
                Quem há de chorar por essa mulher?
                Não é insignificante demais para que a lamentem?
                E, no entanto, meu coração nunca esquecerá quem deu a própria vida por um único olhar.
                NO LUGAR DE UM EPÍLOGO
                E lá, onde os sonhos formavam-se para nós dois - sonhos não muito diferentes iam ficando guardados. Vimos o mesmo sonho, e havia força nele, como a chegada da primavera.
                    Ele gostava de três coisas neste mundo:
                    o coro das vésperas, pavões brancos e mapas da América já bem gastos.
                    Não gostava de crianças chorando, nem chá com geléia de framboesa e nem de mulheres histéricas ...
                    e eu era a mulher dele.
                    Vinte e um. Noite. Segunda-feira. A silhueta da cidade na neblina. Algum desocupado inventou essa história de que há amor no mundo.
                    E por preguiça ou por tédio, todos acreditaram nele e assim viveram: esperando encontros, temendo ruturas e cantando canções de amor. Mas a outros será revelado o segredo e sobre estes recairá o silêncio...
                    Eu tropecei nele casualmente e, desde então, sinto-me como se estivesse doente.
                    Último Brinde
                    Bebo ao lar em pedaços,
                    À minha vida feroz,
                    À solidão dos abraços
                    E a ti, num brinde, ergo a voz...
                    Ao lábio que me traiu,
                    Aos mortos que nada vêem,
                    Ao mundo, estúpido e vil,
                    A Deus, por não salvar ninguém.
                    (1934)
                    MÚSICA
                    Algo de miraculoso arde nela, fronteiras ela molda aos nossos olhos.
                    É a única que continua a me falar depois que todo o resto tem medo de estar perto.
                    Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar ela ainda estará comigo no meu túmulo, como se fosse o canto do primeiro trovão, ou como se todas as flores explodissem em versos. (1958)
                    TREZE  VERSOS
                    E finalmente pronunciaste a palavra não como quem se ajoelha,
                    mas como quem escapa da prisão e vê o sagrado dossel das bétulas através do arco-íris do pranto involuntário.
                    E à tua volta cantou o silêncio e um sol muito puro clareou a escuridão e o mundo por um instante transformou-se e estranhamente mudou o sabor do vinho.
                    E até eu, que fora destinada da palavra divina a ser a assassina, calei-me, quase com devoção, para poder prolongar esse instante abençoado. (1963)
                    À Noite
                    A música no jardim
                    tinha dor inexplicável.
                    Um cheiro de maresia
                    vinha das ostras no gelo.
                    Ele disse: "Sou fiel!"
                    e tocou-me no vestido.
                    Tão diverso de um abraço
                    era o toque dessas mãos.
                    Como quem acaricia
                    um gato ou um passarinho,
                    sorria, com os olhos calmos,
                    sob o ouro das pestanas.
                    A voz triste dos violinos
                    cantava, em meio à névoa:
                    "Dá graças a Deus que enfim
                    estás a sós com o amado".
                    (1913)

              Anna Akhmatova (Анна Ахматова, Анна Андреевна Горенко, 23 de Junho de 1889 - 5 Março 1966) é o pseudónimo de Anna Andreevna Gorenko, uma das mais importantes poetas acmeístas russas.)
              Começou a escrever poesia aos onze anos de idade, mas o pai, um engenheiro naval, temia que Anna viesse a desonrar o nome da família, convencido de estar a adivinhar hábitos decadentes associados à vida artística. Assim, assinou os seus primeiros trabalhos com o primeiro nome da sua bisavó, Tatar.
              Apesar do seu pai ter abandonado a família, quando Anna contava apenas dezasseis anos, conseguiu prosseguir os seus estudos. Portanto, não só estudou no liceu feminino de Tsarskoe Selo e no célebre Instituto Smolnyi de São Petersburgo, como também no Liceu Fundukleevskaia de Kiev e numa faculdade de Direito, em 1907.
              A obra de Akhmatova compõem-se tanto de pequenos poemas líricos como de grandes poemas, como o Requiem, um grande poema acerca do terror estalinista. Os temas recorrentes são o passar do tempo, as recordações, o destino da mulher criadora e as dificuldades em viver em escrever à sombra do estalinismo.
              Akhmatova nasceu perto de Odessa. Os seus pais separaram-se em 1905. Ela casa-se com o poeta Nikolaï Goumilev em 1910. O filho deles, nascido em 1912, é o historiador Lev Goumilev.
              Na generalidade, a sua obra é caracterizada pela aparente simplicidade e naturalidade e pela precisão e clareza da sua escrita.
              Morreu em 1966 em Leningrado.
              Biografia
              Estes fragmentos são dedicados à querida Re, do blog Coisas Assim.
              Imagem daqui

              8 comentários:

              Talita Prates on 24 de novembro de 2009 13:38 disse...

              Gostei demais de tudo!
              Muito, muito bom!

              Um bjo grande, Du.

              :)

              "re" on 24 de novembro de 2009 16:59 disse...

              Nossa Du !!!!!
              Que lindo amiga !!!
              Que bom poder ter vc como minha amiga, MESMO.
              Sinto-me lisonjeada com tanto mimo.
              Simplesmente maravilhosa as poesias de Anna e da maneira como tu as colocou ficou mais bela ainda.
              Mas esta maravilha não é para mim mas sim para todos que apreciam a beleza da poesia.
              Penso que a poesia é o registro dos melhores e dos mais felizes momentos das melhores e mais felizes mentes.
              Sem palavras pra agradecê-la, minha amiga querida. Feliz mesmo.
              Muitíssimo obrigada
              Besos y cariño

              Pra ti esta:

              Último Brinde

              Bebo ao lar em pedaços,

              À minha vida feroz,

              À solidão dos abraços

              E a ti, num brinde, ergo a voz...

              Ao lábio que me traiu,

              Aos mortos que nada vêem,

              Ao mundo, estúpido e vil,

              A Deus, por não salvar ninguém.

              Elaine Barnes on 24 de novembro de 2009 17:04 disse...

              Nossa quanta beleza ! Coisas tão antigas e tão atuais aina. Não a conhecia. Adorei tudo! Parabéns pelo post e pela cultura. A gente sempre aprende aqui. bjão

              εїз ViViAn ★ Sbrussi /(",)\ on 25 de novembro de 2009 16:40 disse...

              Olá!

              passei por aqui!!!
              =D

              ______
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              Uma boa semaninha para vc, meu amigo(a)!!!


              Que sua presença,
              seja sempre um sopro de ar puro
              para o ambiente em que estiver.

              Que sua pessoa seja digna de confiança,
              mas com um toque de criatividade.
              Disponível, mas sem esquecer-se de si.

              Incansável pelo ideal,
              mas satisfeita com a vida.
              Ligada aos amigos,
              mas capaz de pensar distante.

              Não conte os anos que já viveu,
              mas ame a vida simplesmente.
              Ocupe-se intensamente no que faz,
              sem pensar no que poderia ter feito.

              E se um dia já não puder seguir
              fisicamente o ritmo habitual,
              descubra mil outras coisas para fazer,
              outros mundos para explorar
              e pessoas para amar, mantendo a paz e o entusiasmo no espírito.

              Assim, muitos buscarão a sua amizade,
              pela sua alegria contagiante,
              pela sua inspiração que sugere,
              e, sobretudo pelo exemplo que proporciona
              de uma vida plenamente realizada.


              (autor desconhecido)


              COM CARINHO...Bjoooo
              ______
              ____(_)_
              __(_)O(_)
              ____(_)
              ____ \/
              ___ \\|//ღViViAn\\(^_^)// Sbrussi

              Rosana on 25 de novembro de 2009 18:50 disse...

              Olá linda menina, voltei.... como é bom passar por aqui e receber carinho para o coração, para a alma, beijos em seu coração!

              Rosana

              ALUISIO CAVALCANTE JR on 25 de novembro de 2009 23:04 disse...

              Não conhecia esta poeta ( não gosto muito do termo poetisa )
              Acho que o que há de mais belo em um poema é a sua cumplicidade com quem o lê. Assim estes fragmentos são perfeitos.

              Levar a todos o belo, o conhecimento, o afetivo, é o que justifica espaços como este.

              Parabéns.

              Voltarei outras vezes.

              Natália on 10 de dezembro de 2009 23:37 disse...

              Que lindo, Duzinha!
              Como tu sabe, eu sou mais prosa que poesia, logo, eu não conhecia essa mocinha aí. Na verdade, eu nunca nem tinha ouvido falar dela.
              É por isso que eu gosto de vir aqui, sempre tem alguma coisa nova pra aprender e algumas palavras bonitas pra apreciar.

              beijo, Du

              Analuka on 21 de agosto de 2010 18:31 disse...

              Que delicioso blog!!! Cheguei aqui pesquisando sobre Anna Akhmatova. Linkarei o endereço, para voltar outras vezes. Deixo abraços alados!

               

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