Fragmentos de Mário Quintana

12/11/2009




No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...
Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco: não há nada que substitua o sabor da comunicação direta.
No céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos. E lá é ainda pior que aqui, pois se trata dos chatos de todas as épocas do mundo.
Nos acontecimentos, sim, é que há destino: Nos homens, não - espuma de um segundo...
Se Colombo morresse em pequenino,
O Neves descobriria o Novo Mundo.
O grande consolo das velhas anedotas são os recém-nascidos...
O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.
O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você.
Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua...
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Quiseste expor teu coração a nu.
E assim, ouvi-lhe todo o amor alheio.
Ah, pobre amigo, nunca saibas tu
Como é ridículo o amor... alheio!
Reflexão de Lavoisier ao descobrir que lhe haviam roubado a carteira: nada se perde, tudo muda de dono.
Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?
Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.
Se um poeta consegue expressar a sua infelicidade com toda a felicidade, como é que poderá ser infeliz?
Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...
Sonhar é acordar-se para dentro.
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio rm que escrevo e em que tu me lês.
Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
A maior dor do vento é não ser colorido…
Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...
Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas: conturbam...
Quandas as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
(...)
Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça...
Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.
Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagens e está fazendo poesia.
Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.
A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão.
Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar
Pois o meu verso tem essa quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor!
Quando duas pessoas fazem amor
Não estão apenas fazendo amor
Estão dando corda ao relógio do mundo
A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...
Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre...
Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

12 comentários:

  1. Tenho vindo aqui menos que o blog merece. Essa série fragmentos está show e Mario Quintana é um autor amado.

    Beijos Du!

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  2. Oláaa..
    Lindo post mais do que merecido a Mario Quintana...e o blog Horizontes marca presença aqui também...afinal cultura é vida...cultura é alimentar a alma..

    Destaco o trecho que colocou: " O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você."

    Grande semana...muita luz para você.

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  3. Agrada-me ( muito ) que certas pessoas consigam dizer em palavras bem simples coisas nem sempre tão simples.

    Sem querer.... ficamos presos, sorrimos com a verdade evidente que ali está escrita.

    Tudo de bom para ti...
    Rolando

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  4. Maravilhoso, adorei mesmo!! Escolheste um poeta perfeito!! Parabéns, Du
    Concordo com o Mário quando ele diz: “Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente … e não a gente a ele!”
    Existem poesias que são perfeitas, é o encontro de almas. Tem uma do Mário que eu gosto muito.
    "Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos..."
    (Quintana)
    Lindo, lindo!
    Besos

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  5. Olá...
    Visitando, elogiando o perfeito post sobre o Mario Quintana e oferecendo um selinho a você no meu novo post.

    Abraços.

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  6. Este cara sabia o que falava.. ou melhor, sentia e falava sobre isto!!

    Sou fã..

    Bjos

    =)

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  7. Bah, que seleção hein? O Mário Quintana é uma coisa que não tem como explicar. Uma vez eu tentei explicar pra um amigo carioca, que conhecia pouco dele, o que o cara significava pra mim e não consegui achar palavras o suficiente. A gente já nasce convivendo com ele pelas ruas da cidade, na Praça da Alfândega, no Menino Deus, na Redenção. Só vivendo isso pra entender completamente. Me deu uma saudade de Porto Alegre agora... hehe
    Bjão!

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  8. Adoro quando vc posta esses fragmentos... e hoje com a simplicidade do Quintana você me emocionou!

    Uma noite de paz!

    Bjs.

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  9. Puxa amiga, nada mais "Porto Alegre" do que o Mario Quintana...

    Me deu uma saudade de quando eu morei aí...

    beijo lindona!
    saudade de tu....
    Pat

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  10. Sempre bom seus fragmentos... rs
    beijos e bom fds!

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  11. Du,
    alguns fragmentos daqui e fizum pos t do Mário Quintana.Passe por lá para me honrar com sua visitinha,
    Beijão

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  12. olá, estou precisando usar uma das frases atribuídas ao Quintana mas não sei se há referência exata da fonte, será que você tem?
    a frase é "A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão."
    ela é atribuída a ele, muitas pessoas citam, mas não sei se posso usar sem saber a fonte exata da publicação.
    se puder me ajudar, agradeço muitíssimo.
    e parabéns por este espaço!
    abraço,
    lucila

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