Ao sabor do vento

12/09/2011



Era um casal de velhos e estavam os dois sentados na mureta daquele viaduto. Pareciam avessos ao perigo e ao movimento intenso do trânsito enlouquecido da cidade. Era fim de tarde e o sol já se deitava no horizonte. Ora ele ficava em pé e segurava nas mãos dela, ora ela o abraçava e elevava os dois braços para o céu, como em agradecimento. Estavam brincando e felizes, pelo menos era o que parecia.

Eu observava aquela cena quase não acreditando no que via. Eram velhos e ao mesmo tempo eram crianças corajosas e alegres, fazendo arte na rua. O que eles faziam lá em cima? A curiosidade e o inusitado da cena me impediam de seguir adiante. Fiquei ali paralisada e observando, como uma intrusa. Eles pareciam estar alheios a tudo e a todos e eu me sentia invadindo um momento sagrado. 

De repente, o velho olha para baixo, abre uma maleta e joga fora tudo o que há nela. São milhares de papéis voando ao sabor do vento. A velha joga um lenço. E os dois lá em cima batendo palmas, rindo, se abraçando... Depois disto, saem caminhando de mãos dadas até sumirem do meu campo de visão. 

Meus olhos de solidão invadindo sem querer um momento que parecia ser muito importante de duas vidas tão vividas e que nem desconfiavam da minha existência. Quem são eles? Para onde foram? Por que fizeram aquilo?

Nunca terei as respostas, mas com certeza jamais vou esquecer a expressão de felicidade e abandono daqueles velhos-crianças!

"I close my eyes, only for a moment and the moment's gone. 
All my dreams pass before my eyes in curiosity. 
Dust in the wind. 
All they are is dust in the wind. 
Same old song. 
Just a drop of water in an endless sea. 
All we do crumbles to the ground, though we refuse to see. 
Dust in the wind. 
All we are is dust in the wind."

[Dust In The Wind - Kansas]

* Isto foi um sonho que eu tive, tão real que transformei neste mini-conto.
Imagem daqui

8 comentários:

  1. E passou uma sensação tão gostosa de desapego... de abrir mão de tanta coisa que temos em nossa "mala"... adoro ler-te, Moça do Sonho!

    Um beijão procê!

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  2. Du,
    coisa mais linda a imagem que se formou em minha mente do casal de velhinhos.
    Para o amor nada importa mais que a mão estendida, que o apoio incondicional, que a cumplicidade de quem se ama. A felicidade, o brilho no olhar o rejuvenescimento que isto causa é inenarrável. Quem já se pegou rindo sozinho com cara de bobo pq lembrou do "amor". Assim sendo,talvez tenham jogado fora lixo emocional, papéis que lembravam outras pessoas, fotos antigas, dívidas, amarguras, tristezas, frustrações ali contidas.
    Talvez seja esta a mensagem, joguemos todas as coisas ruins do passado fora e nos permitamos viver um grande, novo e pra sempre amor ;o)
    Capicchi?
    Bjooooooooo

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  3. Du, esse texto é republicação? Tenho a impressão de já ter lido ele por aqui e também tenho a impressão de ter comentado que achei que fosse de verdade de tão bem escrito que ficou o conto. Parece que você realmente viu o casal de velhinhos... Eu consegui vê-los *-*

    beijinho

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  4. Um sonho muito bonito e muito simbólico, Du. Talvez porque tudo que a gente espera é alguém que partilhe conosco essa época um pouco misteriosa e atemorizante que é a velhice. O gesto de jogar fora o que ainda os impede de ser livremente felizes é lindo. É como se saltassem sobre um abismo e reaparecessem do outro lado livres, leves e soltos.

    Um 2010 de alegria, paz e realizações que te deixem contente da vida.

    Beijo e carinho.

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  5. Oi Du, quanto tempo...mas to de volta e visitando sos poucos os amigos...
    Seu mini conto me lembrou um poema que já postei..."Ontem encontrei com o amor", postei no dia 12 de junho e fiz para um casal de idosos...
    Nem vou explicar muito, se puder ver e ler vai entender a semelhança com seu sonho...
    http://verseiro.blogspot.com/2009/06/ontem-encontrei-com-o-amor.html

    Um abraço na alma...bjo...

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  6. Gosto muito desta música..

    me faz lembrar meu falecido tio...

    =\

    Bjos

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  7. Parece que vc realmente os viu...
    A cena é muito fofa...
    Mas porém, todavia, entretanto, ao joagarem os papéis e o lenço, só consegui pensar em uma coisa pelo restante do conto: eles estavam sujando a cidade!

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  8. Lindo conto, Du querida!

    Admiro a velhice por essas entre outras coisas...

    As histórias que saem da sua alma são sempre fantásticas!

    Beijo grande, com admiração!!

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