A Arte de ser feliz

05/03/2010





Houve um tempo em que minha janela abria sobre uma cidade
que parecia ser feita de giz.

Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando 
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de cada janela, 
uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

[ Cecília Meireles ]


"Por que é que de tanto ver, banalizamos o olhar? 
É preciso enxergar para viver o que há para ser visto, 
olhar com os olhos da alma"
Du

2 comentários:

  1. Du,

    fiquei feliz com este post! Vou olhar com outros olhos pela minha janela...

    Beijinho.

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  2. Ai, Duzinha, quando tu escreve esses posts bonitos e me pega num dia sensível, sempre consegue arrancar lágrimas tímidas de mim.

    ^^

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