Ella

09/03/2010


"Vagabunda!" - era assim que a chamavam.

Todas as noites um homem diferente.
Às vezes dois, às vezes trocando de parceiro com as amigas, às vezes todos juntos.
Ella era feliz assim, muito feliz apesar da pobreza. Passava por grandes apertos, muitas vezes sem ter o que comer e mesmo assim não desanimava!
Ao cair a noite vestia a melhor roupa, linda de batom vermelho e ia pra rua, dançava até o amanhecer. Ella não vendia o corpo. Fazia porque gostava, fazia porque queria e era quase uma necessidade, talvez em busca de um carinho que nunca teve, mesmo que coberto de frieza e sexo.

Ella queria essa fuga e essa dor do vazio do depois.
Ella queria mais, queria o pecado que Ella mesma não sabia o que era e mesmo assim não se permitia pensar. Sentia raiva do mundo e queria se vingar da hipocrisia de todas as pessoas que conhecia. Eles não se importavam, só sabiam julgar seus atos considerados obscenos. Ella tinha vontade de cuspir na cara das pessoas e gritar que era livre e só, ninguém a sustentava, que fossem cuidar de suas vidas!

Um dia amanheceu diferente e Ella sentiu diferente, outro gosto e outra sensação. Beijos na boca com sofreguidão e abraços sentidos, afoitos, quase desesperados de afeto.

Ella e Mariana... nunca imaginou nada assim.

Mariana contou que era rica e tinha quase 30 anos, era linda e independente. Mulher feminina e delicada e Ella ainda não entendia como se encontraram na noite passada. Não importava, não agora. Ella tinha certeza de que algo grande havia acontecido, pelo amor ou pela dor. Carinho real e sincero, duas almas em uma, talvez amor, quem sabe?

Mais um beijo doce e demorado. Mariana finalmente saiu da cama se espreguiçando e foi para o banho. Ella a admirava com o coração e os olhos afundados na esperança de uma vida nova.
Mariana saiu do banho, vestiu suas roupas, abriu a bolsa e tirou dali um maço de cigarros e outro de dinheiro, largando na cabeceira da cama. Disse à Ella que era casada e que nunca mais a procurasse, que fingisse não conhecê-la se a encontrasse na rua...
Ella ficou ali durante muito tempo depois daquilo, talvez o dia inteiro, pensando em como seu coração era frágil e por breves instantes quis morrer, mas não chorou.

"Que se explodam!"

Ella iria viver até o fim dos seus dias acreditando que seria possível.
Mariana... 

[Dulce Miller]
Imagem daqui

6 comentários:

  1. Que forte!!

    Isso deve acontecer bastante...

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  2. Mto forte Dú...
    E ao mesmo tempo... comovente!
    Qtas pessoas amam erradas, por não aceitarem amar pessoas de mesmo sexo...

    O poema do Lua Imaginada tem um pouco a ver com teu texto!
    Passa lá para conferir...

    http://luaimaginadapoemas.blogspot.com

    bjão

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  3. Lembro-me desta historia, foi grato voltar a le-la.

    Beijo.

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  4. Um conto com muita personalidade!Confesso que me surpreendi com a história de Ella.

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  5. 80% fazem o mesmo e não são tachados de vagabundos. Ah, e também se apaixonam por mulher! (rs*) A alma não possui sexo! Belo conto! Beijus,

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