Fragmentos de Cora Coralina

01/09/2011



Aninha e suas pedras 


Não te deixes destruir... 
Ajuntando novas pedras 
e construindo novos poemas. 
Recria tua vida, sempre, sempre. 
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. 
Faz de tua vida mesquinha 
um poema. 
E viverás no coração dos jovens 
e na memória das gerações que hão de vir. 
Esta fonte é para uso de todos os sedentos. 
Toma a tua parte. 
Vem a estas páginas 
e não entraves seu uso 
aos que têm sede. 

O Cântico da Terra 

Eu sou a terra, eu sou a vida. 
Do meu barro primeiro veio o homem. 
De mim veio a mulher e veio o amor. 
Veio a árvore, veio a fonte. 
Vem o fruto e vem a flor. 

Eu sou a fonte original de toda vida. 
Sou o chão que se prende à tua casa. 
Sou a telha da coberta de teu lar. 
A mina constante de teu poço. 
Sou a espiga generosa de teu gado 
e certeza tranqüila ao teu esforço. 
Sou a razão de tua vida. 
De mim vieste pela mão do Criador, 
e a mim tu voltarás no fim da lida. 
Só em mim acharás descanso e Paz. 

Eu sou a grande Mãe Universal. 
Tua filha, tua noiva e desposada. 
A mulher e o ventre que fecundas. 
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor. 

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu. 
Teu arado, tua foice, teu machado. 
O berço pequenino de teu filho. 
O algodão de tua veste 
e o pão de tua casa. 

E um dia bem distante 
a mim tu voltarás. 
E no canteiro materno de meu seio 
tranqüilo dormirás. 

Plantemos a roça. 
Lavremos a gleba. 
Cuidemos do ninho, 
do gado e da tulha. 
Fartura teremos 
e donos de sítio 
felizes seremos.



Mãe 


Renovadora e reveladora do mundo 
A humanidade se renova no teu ventre. 
Cria teus filhos, 
não os entregues à creche. 
Creche é fria, impessoal. 
Nunca será um lar 
para teu filho. 
Ele, pequenino, precisa de ti. 
Não o desligues da tua força maternal. 

Que pretendes, mulher? 
Independência, igualdade de condições... 
Empregos fora do lar? 
És superior àqueles 
que procuras imitar. 
Tens o dom divino 
de ser mãe 
Em ti está presente a humanidade. 

Mulher, não te deixes castrar. 
Serás um animal somente de prazer 
e às vezes nem mais isso. 
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar. 
Tumultuada, fingindo ser o que não és. 
Roendo o teu osso negro da amargura. 

O Passado...

Homens sem pressa, 
talvez cansados, 
descem com leva 
madeirões pesados, 
lavrados por escravos 
em rudes simetrias, 
do tempo das acutas. 
Inclemência. 
Caem pedaços na calçada. 
Passantes cautelosos 
desviam-se com prudência. 
Que importa a eles o sobrado?

Gente que passa indiferente, 
olha de longe, 
na dobra das esquinas, 
as traves que despencam. 
-Que vale para eles o sobrado?

Quem vê nas velhas sacadas 
de ferro forjado 
as sombras debruçadas? 
Quem é que está ouvindo 
o clamor, o adeus, o chamado?... 
Que importa a marca dos retratos na parede? 
Que importam as salas destelhadas, 
e o pudor das alcovas devassadas... 
Que importam?

E vão fugindo do sobrado, 
aos poucos, 
os quadros do Passado.

Todas as Vidas

Vive dentro de mim 
uma cabocla velha 
de mau-olhado, 
acocorada ao pé 
do borralho, 
olhando para o fogo. 
Benze quebranto. 
Bota feitiço... 
Ogum. Orixá. 
Macumba, terreiro. 
Ogã, pai-de-santo... 
Vive dentro de mim 
a lavadeira 
do Rio Vermelho. 
Seu cheiro gostoso 
d'água e sabão. 
Rodilha de pano. 
Trouxa de roupa, 
pedra de anil. 
Sua coroa verde 
de São-caetano. 
Vive dentro de mim 
a mulher cozinheira. 
Pimenta e cebola. 
Quitute bem feito. 
Panela de barro. 
Taipa de lenha. 
Cozinha antiga 
toda pretinha. 
Bem cacheada de picumã. 
Pedra pontuda. 
Cumbuco de coco. 
Pisando alho-sal. 
Vive dentro de mim 
a mulher do povo. 
Bem proletária. 
Bem linguaruda, 
desabusada, 
sem preconceitos, 
de casca-grossa, 
de chinelinha, 
e filharada. 
Vive dentro de mim 
a mulher roceira. 
-Enxerto de terra, 
Trabalhadeira. 
Madrugadeira. 
Analfabeta. 
De pé no chão. 
Bem parideira. 
Bem criadeira. 
Seus doze filhos, 
Seus vinte netos. 
Vive dentro de mim 
a mulher da vida. 
Minha irmãzinha... 
tão desprezada, 
tão murmurada... 
Fingindo ser alegre 
seu triste fado. 
Todas as vidas 
dentro de mim: 
Na minha vida - 
a vida mera 
das obscuras!



Eu Voltarei


Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho, 
servidor do próximo, 
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias. 
Muitos filhos à nossa volta. 
Cada nascer de um filho 
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica. 
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel, 
a árvore de Ruth, a árvorede Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar. 
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas, 
teremos uma fazenda e um Horto Florestal. 
Plantaremos o mogno, o jacarandá, 
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro. 
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros. 
Terão moinhos e serrarias e panificadoras. 
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens 
e mulheres, ligados profundamente 
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou 
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros. 
Eu voltarei... 
A pedra do meu túmulo 
será enfeitada de espigas de trigo 
e cereais quebrados 
minha oferta póstuma às formigas 
que têm suas casinhas subterra 
e aos pássaros cantores 
que têm seus ninhos nas altas e floridas 
frondes.
Eu voltarei...

Considerações de Aninha

Melhor do que a criatura, 
fez o criador a criação. 
A criatura é limitada. 
O tempo, o espaço, 
normas e costumes. 
Erros e acertos. 
A criação é ilimitada. 
Excede o tempo e o meio. 
Projeta-se no Cosmos

Conclusões de Aninha

Estavam ali parados. Marido e mulher. 
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça 
tímida, humilde, sofrida. 
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, 
e tudo que tinha dentro. 
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar 
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula, 
entregou sem palavra. 
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, 
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar 
E não abriu a bolsa. 
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar 
e a mulher participa sem ajudar. 
Da mesma forma aquela sentença: 
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar." 
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, 
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso 
e ensinar a paciência do pescador. 
Você faria isso, Leitor? 
Antes que tudo isso se fizesse 
o desvalido não morreria de fome? 
Conclusão: 
Na prática, a teoria é outra.

Velho

Estás morto, estás velho, estás cansado! 
Como um suco de lágrimas pungidas 
Ei-las, as rugas, as indefinidas 
Noites do ser vencido e fatigado.

Envolve-te o crepúsculo gelado 
Que vai soturno amortalhando as vidas 
Ante o repouso em músicas gemidas 
No fundo coração dilacerado.

A cabeça pendida de fadiga, 
Sentes a morte taciturna e amiga, 
Que os teus nervosos círculos governa.

Estás velho estás morto! Ó dor, delírio, 
Alma despedaçada de martírio 
Ó desespero da desgraça eterna.

Ressalva
Versos... não 
Poesia... não 
um modo diferente de contar velhas histórias

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces: 
Positiva e negativa 
O passado foi duro 
mas deixou o seu legado 
Saber viver é a grande sabedoria 
Que eu possa dignificar 
Minha condição de mulher, 
Aceitar suas limitações 
E me fazer pedra de segurança 
dos valores que vão desmoronando. 
Nasci em tempos rudes 
Aceitei contradições 
lutas e pedras 
como lições de vida 
e delas me sirvo 
Aprendi a viver.

Mascarados

Saiu o Semeador a semear 
Semeou o dia todo 
e a noite o apanhou ainda 
com as mãos cheias de sementes. 
Ele semeava tranqüilo 
sem pensar na colheita 
porque muito tinha colhido 
do que outros semearam. 
Jovem, seja você esse semeador 
Semeia com otimismo 
Semeia com idealismo 
as sementes vivas 
da Paz e da Justiça.


Biografia:
Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, nasceu no estado de Goiás (Goiás Velho) em 1889. Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães. Em 25 de novembro de 1911 deixa Goiás indo morar no interior de São Paulo. Volta para Goiás em 1954, depois de 45 anos. Cora Coralina era chamada Aninha da Ponte da Lapa. Tendo apenas instrução primária e sendo doceira de profissão. Publicou seu primeiro livro aos 75 anos de idade. Ficou famosa principalmente quando suas obras chegaram até as mãos de Carlos Drummond de Andrade, quando ela tinha quase 90 anos de idade. Sua obra se caracteriza pela espontaneidade e pelo retrato que traça do povo do seu Estado, seus costumes e seus sentimentos. Faleceu em 10 abril de 1985 em Goiânia.
Publicou:
Estórias da Casa Velha da Ponte, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, Os Meninos Verdes, Meu Livro de Cordel, O Tesouro da Velha Casa, Becos de Goiás (1977); e Vintém de cobre: meias confissões de Aninha (1983). Além disso, publicou A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (Infantil) e Cora Coragem Cora Poesia foi sua biografia, escrita por sua filha Vicência Bretas Than.
Alguns dos prêmios que recebeu:
- Doutor Honoris Causa - Universidade Federal de Goiás (1983) 
- Troféu Juca Pato - União Brasileira dos Escritores (1983) 
- Troféu Cora Coralina - Coordenadoria de Moral e Civismo da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro (1982) 
- Grande Prêmio da Crítica - Associação Paulista de Críticos de Arte
Fonte
Fonte da imagem

8 comentários:

  1. Sempre ouvi falar em Cora Coralina, mas nunca tinha lido nenhum texto dela.

    Bjos

    ResponderExcluir
  2. Passei por aqu pra te dar um abraço e aproveitei para ler a Cora Coralina.
    Beijossss

    ResponderExcluir
  3. "Versos... não
    Poesia... não
    um modo diferente de contar velhas histórias"

    Cora Coralina

    Lindos Fragmentos...

    ResponderExcluir
  4. Maravilhosa Cora, linda poetiza, amo amo amo

    ResponderExcluir
  5. Tocou meu coração de verdade, Du! E só li o primeiro ainda!

    ResponderExcluir
  6. Amei o blog, amei!!!
    Um abraço!

    ResponderExcluir
  7. E quem nunca correu os olhos e deixou a imaginação a vagar nos versos da doceira poetisa? Excelente escolha de postagem.
    Desde as margens do Rio do Carmo saio a convidar meus amigos do mundo, para que vejam a poesia que falo de certo Presente do Céu, os contos que conto e as crônicas que narro. Você não conhece o Rio do Carmo? Não lhe culpo de nada. É tão pequenino o meu lugar. Mas ainda assim eu falo, pois é mundo, e quando se é mundo nunca falta o que falar.

    Abraço do Jefhcardoso e lhe espero no http://jefhcardoso.blogspot.com.

    ResponderExcluir
  8. Enriquecedora postagem.

    Um beijo e bom fim de semana!

    ResponderExcluir

^ Suba