Papel Amassado

03/05/2010




Nenhuma folha em branco. Todas escritas. Algumas amassadas.



O cesto acumula bolas de papel amarrotadas que, sem piedade, foram sendo descartadas uma a uma. Aquelas em que erro e corrijo e torno a cometer deslizes.

Frases iniciadas e interrompidas esquartejaram as palavras e deixaram sem sentido o que o pensamento queria expressar. Daí um gesto impaciente aperta, comprime e as põem de lado. Folhas de papel que rasuradas em sua limpidez se vêem machucadas e inúteis.

Na verdade, elas fazem parte de todo um processo de criação. São os rascunhos, os ensaios, as tentativas de elaborar um texto. O exercício de transportar pensamentos, de registrar impressões como se a folha de papel fosse um pedaço de mármore pronto para o cinzel do escultor.

E uma folha de papel amarfanhada nunca mais será a mesma. Por mais que tentemos alisá-la, conservará as marcas, as cicatrizes.

Paralela a essa realidade, constato que somos capazes de amarrotar momentos, tal qual fossem feitos de papel, pela nossa intenção fracassada de criar algo melhor. Imprudentes, jogamos na cesta da vida alguns instantes que ficaram rasurados pela inabilidade de torná-los coerentes.

Tenho, também, conhecimento de sentimentos enrugados, machucados. Sentimentos que sofreram transformações porque foram apertados, esmagados.

Aquele começo que teve fim mais rápido do que o previsível, aquela espera que se estendeu por um tempo mais longo do que o desejado, aquela rejeição, o ciúme desmedido, a inveja sufocante, aquela frustrante tentativa de agradar. Uma lista infindável poderia ser registrada aqui. Usem a imaginação.

É preciso ter fôlego de alpinista e mãos de pluma para apalpar sentimentos sem rasurá-los, machucá-los, amarrotá-los. Pois sentimentos são exatamente iguais a folhas de papel em branco, onde o que registramos fica plasmado para sempre. Impossível desfazer as ranhuras.

Minha cesta continua cheia de papéis amassados e na gaveta da alma guardo alguns sentimentos amarrotados. Em compensação tenho escrito algumas páginas e sentido muito a vida, se não com menos erros, com certeza, com mais acertos.

E uma folha pálida me olha inquieta, enquanto balanço o lápis entre os dedos. Seu futuro é incerto.

Nenhuma folha em branco. Todas escritas. Algumas amassadas.

[Crônica de Maria Alice Estrella]
Conheça mais sobre a autora, aqui

7 comentários:

  1. Bela cronica!
    Uma segunda cheia de energias e escritas boas!
    Beijão

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  2. É preciso ter fôlego de alpinista e mãos de pluma para apalpar sentimentos sem rasurá-los, machucá-los, amarrotá-los.

    Muito bom.

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  3. Nossa, quantas folhas amassadas encontra-se em meu cesto! Algumas rabiscadas e pintadas de cores claras que nem as letras podem ser lidas... Papéis, folhas, rabiscos...

    Duzinha, muito muito bom esse texto!! Que maravilha vc nos presentear com essa leitura maravilhosa...

    Parabéns a vc por sempre nos trazer coisas lindas dessa escritora fantástica! E parabéns a Maria Alice mais uma vez por está nesse blog lindo em forma de palavras!!

    Beijosss

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  4. Preciso reconhecer que este texto falou muito comigo. Vou recolher os papeis do chão, já que o cesto está cheio.

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  5. Fantástico! Du, poderia me passar teu e-mail?

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  6. 'Paralela a essa realidade, constato que somos capazes de amarrotar momentos, tal qual fossem feitos de papel, pela nossa intenção fracassada de criar algo melhor. Imprudentes, jogamos na cesta da vida alguns instantes que ficaram rasurados pela inabilidade de torná-los coerentes.'

    Puts, Duzinha, bem que tu falou que a Maria Alice escreve bem demais. Tô apaixonada por essa crônica. Sabe aquelas coisas que a gente lê e tem vontade de ter escrito? Taí, foi essa sensação que eu tive ao ler e reler essa crônica.
    Eu tenho pena de colocar fora os meus papéis amassados. Eles são tão parte de mim...

    beijos, Duzinha

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