Quando o amor vira doença

07/05/2010


O amor – apesar de ser um dos sentimentos humanos mais conhecidos e retratados nas artes e na mídia em geral – somente passou a ser cientificamente estudado recentemente e muitas pessoas que sofrem com sua maneira de amar, se mantendo em relacionamentos dolorosos e destrutivos ou mesmo amando à distância sem conseguir se desligar, têm procurado os profissionais especializados com a dúvida: "Afinal, a minha maneira de amar é normal ou patológica?"

A resposta a essa questão ajuda a pessoa a iniciar a sua própria avaliação. Assim como ocorre com todos os sentimentos, como o medo e a raiva, por exemplo, o limiar entre o que é normal e o que é patológico no amor romântico é difícil de ser estabelecido. Não existe uma maneira certa ou errada para amar, isso é variável de indivíduo para indivíduo.

No entanto, sabemos que, no amor saudável, é comum e até esperado o comportamento recíproco de prestar atenção e cuidados ao parceiro. Quando esse comportamento se torna excessivo e a pessoa se vê obrigada a manter atenção no parceiro mais do que ela considera razoável, passando a deixar de lado outras atividades e pessoas que antes valorizava como filhos e amigos, ela pode estar com um problema que convencionamos chamar de amor patológico.

Para ajudar na avaliação da “dosagem” de seu amor com relação a(o) seu(ua) parceiro(a), procure se questionar sobre:

* Você costuma sentir-se satisfeito com a quantidade de atenção e tempo que dedica a(o) seu(ua) parceiro(a) ou percebe que fez mais do que gostaria ou do que ele(a) mereceria?

* Você acha que a quantidade de atenção que você dirige a(o) seu(ua) parceiro(a) está sob o seu controle ou é comum tentar se conter e não conseguir?

* Você mantém outros interesses e relacionamentos ou abandonou pessoas e atividades para privilegiar a relação com essa pessoa em especial?

* Você continua se desenvolvendo pessoal e profissionalmente após o início de seu relacionamento amoroso?

Se você respondeu “não” à maioria das questões, é um sinal de alerta; nesses casos, existe a necessidade de realizar uma avaliação clínica mais aprofundada com um especialista, psicólogo ou psiquiatra.

Outra pergunta bastante comum é “Amar dessa maneira patológica é, definitivamente, sofrer?” A resposta é “sim”. Muitas pessoas que estão passando por essa situação referem sentir que o(a) parceiro(a) que é alvo desse sentimento funciona como uma droga. Dizem eles: “Fulano(a) é a minha cocaína”. De fato, há características do amor patológico que se assemelham às da dependência de álcool e outras drogas que precisam ser avaliadas cuidadosamente, tais como:

1. Sinais e sintomas de abstinência (dores musculares, insônia, taquicardia, ansiedade, depressão etc.) na ausência ou distanciamento (mesmo afetivo) do(a) companheiro(a); quando o(a) parceiro(a) “volta” ou “dá sinal de interesse”, esses sintomas desaparecem ao menos momentaneamente;

2. A pessoa se ocupa do parceiro e dos interesses dele mais do que ela gostaria, muitas vezes não chegando a receber a mesma atenção em retorno;

3. Atitudes para diminuir ou para controlar o comportamento de cuidar do parceiro são difíceis e, em geral, mal sucedidas;

4. A pessoa gasta muito tempo pensando no(a) parceiro(a) ou controlando suas atividades;

5. Ocorre abandono de interesses e atividades antes valorizadas;

6. O quadro é mantido, apesar da pessoa saber que gera problemas (inclusive profissionais) para ela, para o(a) parceiro(a) ou para os familiares.

Além dessa avaliação, o profissional irá analisar, juntamente com cada cliente, se um transtorno psiquiátrico está presente ou não. Existem pessoas que desenvolvem esse quadro devido a sintomas de ansiedade e de depressão anteriores ao amor patológico e, nesses casos, o relacionamento destrutivo e conturbado funciona como atenuante do sofrimento gerado por esses sintomas e o tratamento medicamentoso pode ser necessário.

No entanto, os casos de amor patológico também podem ocorrer como problema isolado tanto em homens quanto em mulheres, principalmente aqueles com baixa auto-estima e profundos sentimentos de raiva, abandono e rejeição. Na infância dessas pessoas, o modelo familiar predominante era o ansioso-ambivalente, ou seja, na relação entre mãe/pai com o bebê, este não se sentia seguro quanto ao apoio do(a) pai/mãe (ou de quem os substituiu) em situações amedrontadoras. Quando uma criança aprendeu esse modelo de relação, ela poderá repeti-lo em sua relação amorosa, na vida adulta. A psicoterapia está indicada nestes casos, para reestruturação desse modelo, ajudando a pessoa a se fortalecer, de modo a possibilitar o desenvolvimento de outro modelo de relação. Isso não significa trocar de parceiro, mas sim adquirir a capacidade de se relacionar de maneira mais segura e saudável com o parceiro atual ou com quem ela queira se relacionar.

Outro tipo de problema que ocorre frequentemente no âmbito do relacionamento amoroso é a dificuldade de um dos parceiros em formar um laço mais duradouro, apegar-se, de forma a amadurecer a relação. Esses indivíduos têm dificuldade de passar do estágio da paixão. O que os motiva é o jogo da sedução e da conquista e, uma vez conquistado, o parceiro deixa de representar um interesse. Em geral, o modelo aprendido na infância é o rejeitador, no qual o bebê, ao procurar proteção, experimentava constante rejeição por parte dos pais. Ao se tornar adulta, a pessoa passa a tentar viver sem precisar se envolver, isto é, sem amar e sem a ajuda dos outros, dificultando a formação do laço amoroso. Muitos conquistadores se encaixam nessa situação e alguns se incomodam a ponto de procurar um terapeuta, enquanto outros são pressionados pelo(a) parceiro(a) a mudar.
Se você ou alguém que você conhece precisar de mais esclarecimentos, o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo oferece, através do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (AMITI), avaliação e tratamento especializado. Mais informações pelo site: www.amiti.com.br[1].
Dra. Eglacy Sophia é psicóloga clínica com mestrado pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).
Dra. Monica Zilberman é médica psiquiatra, pesquisadora do Laboratório de Psicofarmacologia (LIM-23) do Instituto de Psiquiatria da USP e professora do programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da USP.

Fonte 

2 comentários:

  1. Eu tenho medo do amor. Ele sempre me destrói...

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  2. Amar é sempre bom. Amar doí muitas vezes, mas na maioria delas apenas se aprende.
    Filha, meu forte abraço e um beijo bem gostoso em seu coração. Obrigada por ser minha filha do coração, sempre te amarei e sempre estarei pronta a te acolher em meus braços.
    Te amo e muitooooooo!

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