Um conto: Desconstruindo Luisa

05/03/2011


Não. Luisa não estava esperando um príncipe encantado. Não acreditava nem nunca acreditou que existisse tal príncipe, mesmo nos contos de fadas quando era criança, achava tudo bonitinho mas irreal demais para ela. Nunca foi romântica, nunca foi sonhadora. Luisa só acreditava no que podia ver e tocar. Totalmente cética em relação a sentimentos ou fatos desconhecidos. Para ela o homem nunca pisou na lua. Para ela a morte era a única coisa a esperar, porque era coisa certa.

Um dia Luisa provou do que era sentir solidão, sentimento novo para alguém tão auto-suficiente. Aquilo causou perturbação e ainda mais dúvidas. Começou a sentir falta de alguém ao seu lado, para compartilhar as opiniões e também as contas, que aumentavam como uma bola de neve. Não. Luisa não queria alguém apaixonado, ela queria segurança e conforto.

Marcos surgiu ao lado dela na fila do Banco. Alto, moreno, corpo bonito, bem vestido e pelo que o nariz de Luisa pode perceber, muito perfumado. O seu radar interno acusou compatibilidade total de gênios e gostos. “É ele”, Luisa pensou. Por outro lado, Marcos encantado com aquela “coisinha minúscula e delicada” na frente dele, nunca imaginou uma personalidade tão avessa à aparência daquela moça.

De um café depois da fila os dois partiram para a aventura do sexo sem compromisso. Luisa estava acostumada a tratar o sexo como algo banal e fisiologicamente necessário. Mas naquele dia ela sentiu paixão além da solidão do corpo e da alma. E se entregou sem reservas para Marcos como nunca antes havia acontecido. O amor se fez como num sonho que nunca foi sonhado. Mas o amor é bicho que corrói como traça um coração desavisado e por isto mesmo, Marcos tomou seu banho e foi embora enquanto Luisa dormia.

Quando acordou sozinha no motel, perdida e confusa, entendia tudo menos ainda do que antes. E junto com o amor frustrado vieram as lágrimas que ela nunca chorava, porque não era fraca. Sentiu vergonha por ter se permitido sentir… ou não… então ela ria… e chorava…
A vida era uma caixinha de surpresas que Luisa nunca quis abrir. Ela sabia que um dia é sempre melhor do que o outro e assim deve ser sempre. Só que ela nunca se deu conta que a felicidade às vezes fazia chorar. O que para qualquer outra pessoa poderia ter sido uma transa casual e deprimente, para ela foi vida.

E não é que no final de tudo ela gostou deste turbilhão de novas emoções?
Que assim seja…

[Du]

[Imagem daqui]


Tenho sérias dúvidas se o amor é força criadora ou destruidora. Ando cansada de clichês e utopias, mas... a vida é uma caixinha de surpresas e eu quero abri-la e vê-la renovada a cada dia.
Ao som de Joss Stone, nada melhor!


3 comentários:

  1. Acho que Luisa decidiu tarde iso de que o amor vale a pena. Por iso tem o erro de atrair a quem nao quere nada serio, porque nao sabe actuar de outro modo. O sexo sem compromisso é uma aventura que se acaba quando o sexo finaliza. Se ela nao tivera empezado...Antes de se ilusionar, debe tomar um processo de aprendizagem, tem de tomar conciencia de sí mesma e do amor em sí mesmo.

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  2. As coisas acontecem como nos, consciente ou inconscientemente, projetamos.
    Se levármos a vida muito ao pé da letra, acabamos nem vivendo e muitas experiências se vão pelo ralo.
    Tô contigo, chega de clichês...

    Beijo, Du

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  3. Du, querida...

    Me sinto um pouco assim como você: revisitando a vida!!!

    Um dia a gente descobre algumas verdades...

    Adorei o conto!

    Beijocas!!

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