A vida como ela é... e o suicídio

28/03/2011


Se não fosse pelo Twitter, talvez eu nunca ouvisse falar de Cibele Dorsa. Talvez eu nunca soubesse que seu noivo cometera o mesmo ato há dois meses, da mesma forma, da mesma janela... 

Talvez também eu não tivesse oportunidade de ler o belíssimo texto do Tico Santa Cruz, (vocalista dos Detonautas) falando sobre vida (ou) suicídio e sendo julgado pelos seus seguidores por ter escrito o que escreveu.
Sinceramente eu não li nenhuma apologia ao suicídio no texto do Tico, muito pelo contrário, achei que induz à vida e dá uma injeção de esperança e ânimo àqueles que se encontram num grau de tristeza que pode até levar ao suicídio.

Mas esta é a minha opinião e tenho direito a ela. Se discordasse do Tico, eu escreveria este texto da mesma forma, porque me fez pensar, me instigou, me fez perder o sono e eu gosto de escrever quando um fato mexe comigo assim.

Como já falei em outros textos, não sigo nenhuma religião, mas tenho como base na minha vida a fé, entenda quem quiser. 

Quem tem direito de julgar alguém pelo que fez, pelo que faz ou pretende fazer? O que nós sabemos sobre a morte, comprovadamente? Será mesmo que quem comete suicídio nunca terá paz depois de morrer? E aqueles que não acreditam em reencarnação e confirmam esta tese, não estão sendo incoerentes com seu próprio discurso? Não acho que o suicídio seja a solução para qualquer problema, o suicídio é só um jeito de fugir de si mesmo. Cada um sabe a dor de ser o que é e como lidar com isso. 

Quem se suicida é covarde? É um medroso? No meu ponto de vista não. Então é um egoísta, afinal quem comete o ato não pensa na dor dos que ficam? Também não concordo. Egoísta pra mim é quem não compreende a dor alheia. É quem só enxerga o que está em volta do seu próprio umbigo, e o mundo fica muito pequeno visto sob este ângulo.

Eu sei que todo mundo sabe o que é tristeza, mas cada um tem seu próprio jeito de lidar com a dor, como já falei. 

Eu posso me considerar uma ex-suicida, se é que este termo existe. A minha tristeza era tão imensa que não cabia mais em mim. Não faltou apoio, não faltaram amigos, mas tem horas que a dor é maior que tudo e a gente só pensa em se livrar da vida e dormir para sempre. O que faltou na hora, de verdade, foi fé.

Por sorte minha tentativa foi frustrada e poucos sabem deste meu ato inconsequente. Se fui egoísta, medrosa ou covarde naquele momento não importava. Só queria me livrar da dor. Eu chorava por dentro o dia inteiro, o tempo todo, dormia e acordava assim. Mas depois da tentativa frustrada eu acordei e foi como um sopro de vida renovada. Eu ouvia insistentemente uma voz dentro de mim gritando: "QUEM TEM FÉ, NÃO TEM MEDO"... acreditem ou não, é verdade.

Talvez só quem tenha passado por isso algum dia na vida irá compreender. Eu entendo a dor dos outros porque só EU consegui entender a minha. E renasci. E estou aqui pra contar e pedir pra vocês da mesma forma que o Tico Santa Cruz fez no final do texto "Uma dose de amor": Não desista!

Pelo que li nos noticiários, a Cibele tentou continuar vivendo depois do suicídio do noivo, estava trabalhando e escrevia muito bem. No último post no Twitter ela deveria estar drogada de alguma forma, pelo modo que escreveu, mas isso importa? Adiantam especulações? O fato está consumado. Ela fez o que queria, mesmo com a consciência alterada no momento, ela fez o que achou que deveria fazer, ela tinha o direito de fazer o que quisesse, porque a vida era DELA. Aí está o ponto e o motivo deste texto. 

Podem discordar de mim, isto é normal, faz parte da VIDA e não vou xingar ninguém por isso. 


E novamente me vem à mente a frase que já usei em tantos textos aqui no blog: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las." [Voltaire]

Façam por vocês próprios o que tiverem vontade, porque o fato é que ninguém fará. No fundo ninguém se importa DE VERDADE. E ninguém tem o direito de julgar ninguém.


Mas... Não desistam! A vida é uma caixinha de surpresas e a gente só vai descobrir tudo o que contém dentro dela até que o último sopro de vida venha contra a nossa vontade.

Pronto, falei.

[Dulce Miller]
Imagem daqui

12 comentários:

  1. Duuuuuuuu.... linda!

    Sabes que leio-te sempre, não sabes? Se não comento é porque realmente falta-me capacidade e entendimento para tal.

    O texto minha querida, é todo teu, podes levá-lo, fico extremamente lisonjeada com este teu carinho.
    Queres que te envio ou vais copiá-lo?

    Farei com o maior carinho pois tenho teu email.. Tu és quem decides.

    Grata e Bjs muitos....

    Sobre este texto:
    Não sabia disto não. Ja ouvi varias pessoas dizerem que quem tem realmente depressão é que acaba por fazer coisas deste tipo.

    As pessoas confundem, deprimida com depressão, é totalmente diferente. As vezes é uma tristeza passageira e não sabem o diferencial.

    Sei lá, tinha uma conhecida que a filha tbm tirou a própria vida, depois de longo tempo em depressão mesmo.

    E penso ter vários casos assim, tbm não julgo, porque para tomar este tipo de atitude, realmente a pessoa não está bem.

    Perdoe-me se disse alguma besteira, mas são coisas que ouço nos bastidores da vida.

    Bjs...

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  2. Adorei a forma como você descreveu o que pode levar uma pessoa ao suicídio. E é verdade: ninguém pode julgar a pessoa que comete o suicídio, pois só ela sabe o que a levou a fazer isso.

    Tenha um bom dia.

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  3. Dú,
    Seu texto já diz tudo:
    O Suicídio é uma fuga de si mesmo!
    Eu já pensei nisso mas não consumei e depois que li MEMÓRIAS DE UM SUICIDA - YVONE PEREIRA, nem pensei mais no assunto...
    É tenebroso demais!

    Eu recomendo!

    Adoro vc!

    bjo

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  4. Uma história definitivamente muito triste. Tb não conhecia os personagens dela até a semana passada. E a verdade é que me impressionou.

    Tb perdi um grande amor. Assim, da noite pro dia. E então veio o vazio, a dor lancinante, a ausência total de fé. Achei que jamais me levantaria. E demorou, Du. Demorou anos. Hj exatamente completam-se 10 anos. E cá estou. Coluna ereta de novo. Amando de novo. Me dando mais uma chance.

    Concordo com vc que tudo o que mais precisamos é ter fé.

    Um lindo post, Sis!

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  5. Du,

    Adorei teu texto!
    Me fez lembrar de uma frase, escrita por José Saramago:
    "Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
    beijo

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  6. Julgar e dar opinião e conselhos é muito fácil quando se está de fora dos problemas e cada um com os seus.

    Beijo, Du

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  7. Olá, moça!!
    Penso que não há forma de prevenir os erros, mesmo os repetidos, pois tudo o que construímos, se alicerça na imprevisibilidade do coração. Crescer [: mudar] é percorrer os caminhos com outros, de outros, mas, ninguém quer ser permanente inquilino na vontade alheia. A vocação do homem é partir - transferir, morrer e muito raramente, ficar.
    Cada um tem seu livre arbítrio. Parabéns pelo belo texto.

    há-braços.

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  8. Perfeito.

    Tema difícil, que toca a todos!

    Falou e disse, Du querida!!

    Beijos!

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  9. Devíamos ter o direito de tirarmos a própria vida, quando decidíssemos não viver mais, mas de sã consciência. Digo isso porque dificilmente alguém, sem estar envolvido emocionalmente com a morte, queira racionalmente morrer. Na história temos homens e mulheres inteligentíssimos que puseram fim a própria morte e o ato não foi questionado, apenas foram colocadas questões como fraqueza emocional ou distúrbios mentais para justificar o suícidio. E acredito que seja esse o grande motivo para o suicídio - a falta de capacidade de distinguir o estado real, do estado suicida.
    Não conhecia essa moça e quando aconteceu o fato, lembrei vagamente de quando noticiaram a morte do noivo. Fui procurar pelas cartas que ela deixou e quando li, percebi que ela estava desequilibrada, acreditando em coisas que normalmente, até para os mais crentes, ser impossível de acontecer, mas enfim, parei de ler quando ela escreveu que as pessoas se lembrariam deles como "Romeu e Julieta pós-moderno" - parei de ler as cartas mas fui procurar saber o estado real da moça antes de entrar em estado suicida - ela vivia uma maratona social, uma vida bastante fútil e distante do ambiente familiar e de suas raízes. Ela na realidade, não vivia a realidade a muito tempo! Beijus,

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  10. Vou ler o texto do Tico! :) Bom fim de semana!

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  11. Du, eu vou dizer o que não sei agora... Fiquei sem palavras, com teu texto corajoso. Enorme Du, pequena menina. Adorei teu texto, adoro você.

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  12. Dú, ainda não havia lido esse teu escrito com a pena leve da alma.

    Você sabe que aqui do meu lugar, nesse fio curioso e invisível que nos une, pressenti um grito no teu silêncio. Percebi, também, tua dignidade e tua coragem, mesmo quando as palavras deitaram-se cansadas.

    Minha moça, gente como você, eu a Simone, o Denilson, a Van (e outros) temos que potencializar o fio da resistência. Como? criando. A vida com a janela cerrada e os muros altos dos neuróticos, é fácil.

    Difícil é quem habita, para além de si mesmo, o corpo do mundo, para quem pode se dissolver, para quem é ponte sobre o abismo (parodiando Nietzsche).

    Para nós, resta saber que temos pouco a perder e, por isso, vamos nos entrelaçar à vida. Nessa teia livre e aberta de criação.

    Tu me tens contigo, dessa forma que não sabemos explicar.

    bjs

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