Das cinzas, o amor

20/02/2012


Um grito preso na madrugada, um pular da cama em sobressalto, um susto, quase um surto. Vizinhos gritando, sirenes de ambulância e carro de bombeiros acordando o bairro inteiro. Ele ficou parado na cama, estagnado, sem saber o que fazer. Nem conseguia se mexer, o choque paralisou qualquer tentativa de ação.

Foi ela, ele sabia, ele sentia.

A casa em frente estava em chamas e dentro só havia ela, mais ninguém. Ela o avisou quando tiveram aquela briga horrível na noite anterior, mas ele achava que era uma ameaça banal, que ela nunca teria coragem, e só agora percebeu que ela falava sério…

Sentou-se na cama e chorou feito criança, arrependido e assustado, condenando a si mesmo por nada ter feito para impedir aquela loucura. De qualquer forma, estava feito. Então, tirou forças do fundo da sua alma para se vestir e enfrentar a cruel realidade… ela se foi, para sempre…

Abriu a porta e o vento frio misturado ao cheiro da fumaça fez com que sentisse um arrepio no corpo inteiro. Olhou a multidão alvoroçada em volta da casa, tentou visualizar a “vítima”, mas não conseguiu. Chegou mais perto, mais perto… passos lentos, olhos marejados em lágrimas que não conseguia controlar. Então, ele a viu… parada, em pé, olhando fixamente para a casa em chamas.

Ele achava que estivesse vendo um fantasma, quase não acreditou e foi caminhando em direção àquela moça que era sagrada dentro do coração dele.

Ela não chorava, não falava, não se movimentava.. Ele parou ao seu lado e segurou firme sua mão.

Ela olhou para ele e o abraçou tão apertado que quase o sufocou, dizendo, num sussurro: “Eu amo você, me perdoe… eu amo você, me perdoe…”.

“Não tenho o que perdoar”, ele dizia, chorando… “Você não perdeu nada que não possa recuperar. O mais importante é que só agora eu percebi o quanto preciso de você na minha vida. Só agora eu percebi que morreria sem você, sua maluca! Eu é que peço perdão… Sua casa sou eu e eu estou aqui. Você é minha casa e está aqui. E isto é tudo o que importa agora… venha comigo!”

E ele abraçou o seu amor de uma forma como nunca havia abraçado antes, e a beijou como se fosse a primeira vez. E era. A vida de ambos (re)começava naquele instante de absurda loucura.

Na manhã seguinte, o sol iluminava as frestas da janela do quarto, mas eles não queriam sair dali. Não veriam os destroços da casa em frente, não iriam perder nem mais um minuto do que já havia sido perdido por tanto tempo. Não haviam mais dúvidas nem medos. O amor se fazia pleno de certezas, renascido literalmente, das cinzas.

[Du]

*Imagem daqui
Originalmente publicado no Retratos da Alma
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