A disciplina do amor

06/03/2012

Abaixo, alguns trechos do LINDO livro “A Disciplina do Amor”, de Lygia Fagundes Telles.

17 de janeiro
Me alinhei ao lado dos humildes e descobri que não era bastante humilde para ficar junto deles, falsa a minha curvatura, falso o despojamento. Me alinhei ao lado dos fortes e vi que não era suficientemente forte para sustentar por mais tempo aquela arrogância, representava planar sobre os outros porque acreditei que assim não seria esmagada pelo rolo compressor. Teria que subir acima desse rolo, pisar nele – ah, meu Deus, mas era isso o que eu queria?
Não, também não era isso. Quis ficar só para ser verdadeira, agora queria apenas ficar só e então sonhei que era uma rainha num coche desgovernado, em vão chamei por alguém que eu sabia por perto, onde? E o coche rodando para trás, para os lados, sem cavalos e sem cocheiro. Consegui descer e encontrei uma gata cor de mel com seu gatinho, me aproximei enternecida, e o pai? perguntei e apareceu um leão de juba desgrenhada e olhar de pedra. Corri, tinha uma mulher na casa mas a mulher gesticulava e não podia fazer nada enquanto o leão ia fechando o cerco, acordei com as pisadas na minha retaguarda.
Mas quem me detesta tanto assim para me atacar até no sonho? quis saber e nesse instante vi minha imagem refletida no espelho.
25 de fevereiro
Por que não lhe disse antes? Apertá-lo demoradamente contra meu peito e dizer. Não disse porque pensava que tinha pela frente a eternidade. Só me resta agora esperar que aconteça outra vez, vislumbro este encontro – mas vou reconhecê-lo? E vou me reconhecer nos farrapos da memória do meu eu? Peço que me faça um sinal e responderei ao código secreto na noite e no silêncio dos navios que se comunicam quando se cruzam no mar.
18 de março
Ele estava com um livro na mão mas não lia, olhava em frente, quieto. Perguntei o que ele estava olhando. “Estou olhando aqui dentro de mim mesmo” – ele respondeu. E o que você está vendo é bonito? – eu quis saber e seus grandes olhos esverdeados estavam úmidos e neles, como num espelho, vi refletido o seu interior. Fui saindo na ponta dos pés.
25 de abril
Abro uma antiga mala de velharias e lá encontro minha máscara de esgrima. Emocionante o momento em que púnhamos a máscara – tela tão fina – e nos enfrentávamos mascarados, sem feições. A túnica branca com o coração em relevo no lado esquerdo do peito, “ olha esse alvo sem defesa, menina, defenda esse alvo!” – advertia o professor e eu me confundia e o florete do adversário tocava reto no meu coração exposto.
26 de abril
Releio alguns trechos Do amor, do padre Antônio Vieira, e vou me enrolando nos panejamentos barrocos, fico esférica, subo em espiral. Anoto: “O amor deixará de variar se for firme, mas não deixará de tresvariar se é amor”.

Sobre “A Disciplina do Amor”:

São fragmentos dispersos, trechos de diários, escritos de viagens, fantasias e reminiscências... No final das 147 páginas, o quebra-cabeça se monta e os pedacinhos de vida ganham um sentido maior. Em A disciplina do amor, lançado em 1980, a escritora Lygia Fagundes Telles aparece em estado bruto. E convida o leitor a passear pela sua psique, com direito a viajar em suas inquietações e a provar de suas fantasias.
O livro é feito de pequenas obras-primas que nos permitem conhecer um pouco mais o imaginário de uma das mais consagradas escritoras da língua portuguesa. Para ela, "o senso de humor não é negro, nem vermelho, nem azul mas tem as sete cores do arco-íris numa faixa só". Mais adiante, escreve: "É preciso dar uma margem de liberdade não só aos personagens mas também aos bichos." E intercala histórias de suas viagens à China e à Sibéria a trechos do livro de cabeceira As confissões de santo Agostinho.

Mas, afinal, a disciplina é uma virtude do amor? No livro, a autora responde a um amigo que considera o amor indisciplinado por natureza. "Isto só na aparência, na casca... lá nas profundezas ele é de uma ordem e de uma harmonia só comparável à abóbada celeste."

Entre escritos de naturezas diversas, ela tece a sua história e mostra que a vida é feita de pequenos detalhes, sutis, encravados no massacrante cotidiano. "São fragmentos do real e do imaginário... mas há um sentimento comum costurando uns aos outros nos tecidos das raízes. Eu sou essa linha."
Uma linha mestra na literatura brasileira. A disciplina do amor é um livro indispensável a todos que querem saborear um pouco mais o universo da criação literária do país.

Imagens daqui e daqui

2 comentários:

  1. Du,
    Que bela resenha que você fez!!
    Me deixou com vontade de ler este livro dessa autora maravilhosa!
    Bjs

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  2. Massa o livro... a lygia é bom!

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