26 de abr de 2012

Fragmentos de @taprates


Do poema platônico

eu e ele brincamos 
de poesia 
porque não podemos 
brincar 
de amor. 
(amor exige corpo. 
poesia é menos exigente 
e se contenta só 
com alma.)


Da sol-idão e lua

[haicai diurno]

sob o sol do meio-dia
solidão é quente e farta 
nem sombra faz companhia. 


[haicai noturno]

meia-noite sob o céu
solidão é clara e mansa
pinto a lua no papel.


Do soneto do amor intrépido

Admito a cadência vacilante
dos meus passos em tua direção.
O receio da dor, paralisante
quebra a marcha e confunde o coração.

E não é, senão, o amor aquele instante
que se salta, sem ver do abismo o chão?
Tal audácia não se exige do amante
que pretenda, para o amor, coroação?

Não há regra, certeza ou vantagem.
Grande é o risco, e maior a coragem
que se exige para este passo além.

Se às dúvidas e medos sobra margem
que o ousar seja a intrépida vantagem
de quem quer somar-se à vida de alguém. 


Da imanência

contemplo o céu
com os dedos enfiados na terra
e não há metafísica melhor.


Da chuva vital 

Chuva
beija chão
e faz brotar cheiro. 

Vento
sopra vão
e faz soar voz.

Chão
acomoda semente
e faz multiplicar vida.


se a minha alma
proseou com a tua,
então ela
já fez história.


Do que preenche

conforta
o abraço
o que a palavra,
com força,
apenas tateia.


Da palavra-flor

a palavra está em semente

a chuva, escassa
a terra, seca
a voz, rouca
o grito, mudo
as mãos, pendidas
os pés, cansados
os cabelos, presos
as roupas, gastas
os prazos, esgotados
o tempo, corrido
o carro, quebrado
as unhas, roídas
a lua, minguante
o canteiro, esquecido.

vingará a semente?
(preciso cuidar dela!, como preciso...)

- eu não gosto de flores de plástico.


Da gula

estou faminta!
: tua falta
me alimenta.

estou sedenta!
: tua boca
me entorna.

estou farta!
: tua presença
é um banquete.



Das questões retóricas


qual o motivo de não tê-la
se com os olhos a alcanço?
[estrela]

senão pássaro, qual o homem
pode tocá-la com os dedos?
[nuvem]

se minha razão não a alcança
haveria de não existir?
[esperança]

ainda que de agridoce sabor
como deixar de prová-lo?
[amor]

que se me pese a sua lida
como ousar maldizê-la?
[vida]




Talita prates
Difícil tarefa, essa: de me dizer.
Penso que escrever-sobre-si inscreve-nos na esfera do ser – que “implica uma profundidade quase nunca atingível”. (Mas creio que, às vezes, se pode tocá-la.)
Comunicar o que se é envolve uma intimidade que, na maioria das vezes, prescinde da palavra.
Estou em busca, na busca reiterada e sem-fim (enquanto se vive) de existir. Busco um modo de estar-no-mundo que faça sentido – autêntico – pra mim. E que não me doa tanto (viver e doer têm estado muito ligados na minha experiência, e não sei se isso tem de ser necessariamente assim).
Acho que existem pessoas com o (b)ônus de captar mais profundamente o sentimento (e o absurdo) do mundo. Acho que sou uma delas. Eu me afogo no raso – e espero que isso não soe como falta de modéstia, porque só-eu-sei o quanto me custa. Às vezes acho que a vida é P e eu visto G (ou seria o contrário? Nunca sei dizer se a vida é pouco ou demais pra mim...)
Contra esse absurdo do mundo, agarro-me à arte. Escrever tem sido minha salvação.
E se posso contar com algo fora a palavra, tão fugaz, sinto que esse algo é o que chamam de Amor. O Amor – com todas as suas grandezas e mediocridades, porque humano. Mas que, se inteiro, é salvífico.
Às vezes sinto que sou tão sensível que dizer que “minha sensibilidade está à flor da pele” parece pouco. É como se ela rompesse a “barreira” do corpo e conseguisse tocar diretamente o/no mundo, no Outro, na Coisa. Nada sobrenatural num sentido espiritual/esotérico – talvez um sobrenatural demasiado humano.
Quanto às relações, acredito que a gente não se torna eternamente responsável por aquilo que cativa, porque eternidade não é uma grandeza possível em escala humana. Acho inocente a máxima de Saint-Exupéry, ainda que bonita. Mas se eternidade é impossível, inteireza não. E é assim que sou/estou quando estou/sou com o outro. Não quero me dar de forma fragmentada. Assim como não quero pedaços.
Apesar de todo o pessimismo que sinto propensa, por vezes, a proclamar, tenho uma espécie de fé (que prefiro não chamar de esperança, porque esperança é para os que se conformam) no que está por vir.
E acredito que, se não há caminho certo, tudo o que me resta é a intenção do passo. E a minha intenção é sempre reta.
Psicóloga, graduada em filosofia, aspirante a poeta, musicista... 


Conexões da autora:


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5 comentários:

  1. Du, estou emocionada/honrada com tanto carinho.
    Que palavra usar para traduzir o que sinto, a não ser "gratidão"?
    Um beijo!

    (F)

    Talita Prates

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    Parabéns pelo seu Blog!!!
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    Um forte abraço,
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  3. Talita, é um orgulho e um privilégio compartilhar este espaço com tua poesia tão cheia de alma!

    Beijos e muita luz, querida poet'amiga :)

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  4. Bela súmula!
    A paisagem é vasta
    é pujante vida
    de um miradouro que emana poesia!

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  5. Muito bom parabéns! Estou maravilhado.

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