4 de maio de 2012

Estórias Abensonhadas

Postado por Dulce Miller às 20:59


Estórias Abensonhadas traz Mia Couto em sua melhor forma: mágico e envolvente, trabalhando ricamente cada palavra do texto, com tramas cheias de crendices e mistério.

Cada frase – ou melhor, cada sílaba – dos vinte e seis contos de Estórias Abensonhadas é um deleite para o leitor. Mia Couto, com seu pleno domínio sobre a língua portuguesa, brinca com as palavras, cria curiosas sugestões que invadem todos nossos sentidos. Sua invenção linguística é uma forma de grito de independência: não, os colonizadores não puderam impôr seu idioma a Moçambique — o colonizado cria seu próprio léxico, misturando a língua portuguesa às suas lendas e raízes.

O resultado da estilística singular de Couto é uma experiência praticamente multisensorial. Sentimos as pesadas gotas de chuva de Chuva: a abensonhada. A combinação da delicadeza das palavras milimetricamente trabalhadas com a sensibilidade das narrativas ora causa arrepios, ora nos arranca risinhos involuntários.

Estórias abensonhadas foi publicada em Moçambique em 1994 – vinte anos após o fim da Guerra da Independência do país. As narrativas deixam transparecer a ambiguidade do período que precede um conflito: o misto de insegurança e esperança, o medo da mudança combinado à coragem de mudar. Agora, o livro é publicado pela primeira vez no Brasil pela Companhia das Letras, como uma alteração que fará a alegria dos leitores: a inclusão de onze contos inéditos.

No mundo fantástico (mas tão terrivelmente palpável) de Estórias Abensonhadas, a fronteira entre fantasia e realidade dissolve-se. “Toda estória quer se fingir de verdade”.

O autor recorre aos mitos e crendices de sua terra para falar, indiretamente, do renascimento de um país. Em Lenda de Namarói, somos surpreendidos com um belo mito da criação que opõe-se a muitos valores “ocidentais”, revitalizando a “divindade feminina” recorrente na antiguidade.

A oposição entre o feminino e o masculina, aliás, é tema recorrente dos contos. Em Na esteira do parto e no sublime Sapatos de tacão, somos colocados em rota de colisão com nossas expectativas. Outro tema trazido pelo autor é a memória – como no inesquecível conto que abre o livro, Nas águas do tempo.

Nenhum detalhe escapa da atenção de Couto, que constrói seus contos com o cuidado de um ourives. Do encadeamento das sílabas entre si até os sugestivos nomes das personagens, o autor torna completa a experiência do leitor. Nas poucas páginas que duram cada um dos contos, somos completamente enfeitiçados por sua trama – e, quando elas acabam, o feitiço permanece.

Estórias Abensonhadas
Mia Couto
Companhia das Letras
160 páginas
Fonte 

1 comentários:

Poupée Amélie™ on 17 de maio de 2012 10:34 disse...

Mia Couto é mágico! Todo livro uma surpresa, toda história um aprendizado. Amo!

 

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