Amor é amor. Ponto.

16/09/2012



Cinco anos ela tinha e já parecia uma mocinha, sapatinhos vermelhos de verniz, uniforme branco, primeiro dia na escola.

Depois de tantos anos ela ainda lembrava. A mãe preocupada, recomendara ao irmão mais velho: "pegue na mãozinha dela". Só que o irmão envergonhado, não pegou, deixou-a caminhando sozinha, ia seguindo na frente. Tinha vergonha da irmã, não queria que os coleguinhas o chamassem de "maricas". E ela brigava com ele, pois queria a sua mão na dele, tinha medo, mas não confessava, engolia o choro. Já era um tanto esnobe, mesmo tão pequena era orgulhosa... e vingativa.

Quando chegou em casa contou para a mãe que o irmão a deixou sozinha, que não cuidara dela. O irmão apanhou muito, ela chorou porque sentiu culpa, pela primeira vez em sua pouca vida.
Primeiro desencanto. Por ela, pelo irmão, pela mãe... mas nem sabia que esta palavra existia e o que significava.

Depois de algum tempo, ouvia escondida sentada no chão do banheiro a discussão entre o pai e a mãe. Não queria ouvir e tapava os ouvidos, mas ouvia mesmo assim. Os dois falavam em separação e o pai iria embora naquele mesmo dia. A menina sentiu um nó na garganta que não entendia, mas apertava tanto, tanto, que lágrimas grossas rolaram pelo seu rosto. Saiu correndo do banheiro e foi se esconder embaixo da cama, seu refúgio. Ficou semanas sem trocar nenhuma palavra com a mãe, que para ela, era a culpada por tudo.

Segundo desencanto. Por ela, pela mãe, pelo pai que amava tanto, pela vida...

Um dia, a menina já crescida, se apaixonou perdidamente pelo menino mais bonito da faculdade, seu melhor amigo, de todas as horas, de todas as risadas, do primeiro beijo, da primeira transa... e por isto mesmo só ela não queria acreditar que o seu "escolhido" gostava de meninos também... Até que um dia ela mesma viu, com seus próprios olhos incrédulos e assustados, seu amor beijando outro homem na boca. Então ela beijou uma menina também, na frente dele, e disse que o odiava como nunca odiou ninguém antes.

Terceiro desencanto. Por ela, por ele, por eles.

E correu como nunca imaginou correr. E fugiu como nunca pretendia fugir. E chorou feito criança, lembrando do irmão que não queria a sua mãozinha na dele, lembrando do pai que nunca mais vira e finalmente entendeu o significado do "desencanto".

E o tempo passou... era mulher madura agora, nada mais importava além do amor próprio que adquirira sendo simplesmente ela mesma.
Aprendeu a aceitar o amor sob todas as suas formas, aprendeu a perdoar e recuperou seu primeiro e único amor, aceitando as diferenças impostas pelo preconceito e pela sociedade. Era feliz ao lado dele e isto bastava. Ela o amava e era amada como uma princesa.

E aprendeu finalmente que o desencanto era como um espelho disforme e sujo que ela limpava sempre, quase sem perceber, com suas lágrimas de solidão interna.

[Dulce Miller]

Imagem daqui

6 comentários:

  1. É bom quando aprendemos a lidar com estas experiências negativas relaciondas ao amor e fazer com a sua pureza sobressaia.

    Parabéns!!

    ^^

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    1. Valeu Lívia, seja sempre bem-vinda aqui! Beijos

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  2. Lindo, puro, doce...

    amei!!


    Beijos!!!

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    1. Que bom te ver aqui Daniel, muito obrigada, beijos! :D

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