14 de nov de 2012

Liberdade



Sendo possuída por esse novo sentimento, lembro-me da beira do cais da Bahia onde Jorge Amado tomando a mão da negra, convida-a para sentar, olhar as estrelas e ouvir a história do poeta que foi amado e amou muitas mulheres:

“ SENTA-TE AQUI AO MEU LADO, AMIGA, e eu te contarei uma história. Faz tempo que não te conto uma história na beira deste cais. A noite está cheia de estrelas, são homens valentes que morreram. Senta-te aqui, dá-me a tua mão, vou te contar a história de um homem valente. Vês aquela estrela lá longe, mais além do navio fundeado, mais além do forte velho, da sombra das ilhas? Deve ser ele iluminando o céu da Bahia. Não sei se será bem uma história o que te vou contar. Talvez seja uma louvação, talvez seja um abc. Um abc, negra, que tem um nome lindo: Liberdade”. E embala numa canção sentida o ABC do poeta.

Levanto-me, pois tenho encontro com os marinheiros que esperam o Profeta na cidade de Orphalese. Ansiosos, caminhamos desnudos sem vestimenta e epiderme. A voz não leva consigo a língua e os lábios que lhe deram asas. E pergunta: “Será, acaso, o dia da separação o dia do encontro?” E depois de longas caminhadas e ensinamentos um tribuno diz: “Mestre, fala-nos de Liberdade!” E o profeta responde: “Às portas da cidade e junto à lareira já vos vi prostrados a venerarem a vossa própria liberdade. Tal como os escravos se curvam perante um tirano e o louvam enquanto ele os açoita. E o meu coração sangrou por dentro; pois só se pode ser livre quando o desejo de encontrar a liberdade se tornar um jugo para vós, e quando cessardes de falar de liberdade como de uma meta e de um fim. Sereis verdadeiramente livres não quando os vossos dias não tiverem uma preocupação nem as vossas noites necessidades ou mágoas.Mas quando estas coisas rodearem a vossa vida e vós vos ergais acima delas, despidos e libertos.” 

Deixo o oriente. Volto enriquecida. Mas ainda quero falar sobre tema. Sinto dúvidas no momento de opção. É quase impossível conversar com todos os meus livres amigos. Encontro Cecília e Djavan. Ela que é exímia professora na arte de ver, sabendo como ninguém o segredo de nos fazer enxergar, sentir, transformar e amar as coisas e as pessoas através da ótica de poeta, me diz: “Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, a ela se tem até morrido com alegria e felicidade. Somos, pois criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre – como diria o famoso conselheiro… – é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo que partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho… Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autônomo e de teleguiado – é proclamar o triunfo luminoso do espírito.” 
Djavan olha para mim e canta: 

“Um amor ou um gen da mesma cor cintila em mim
O chão a tremer conduz a luz
Meu amor e quer me matar de amor
Que seja assim por obedecer viver por mim
E voar onde o longe é pouco
Cruzar os muros do além
E assim pousar na Terra
E amar muito mais que poucos
Pousar a vida em tuas mãos
E assim cruzar a Terra
Liberdade vai na poesia
Trás meu destino
Que eu vou sair e voar!”

Penso, e eles me entendem, que a marca da ignorância é a profundidade da crença do ser humano na vaidade e no egoísmo. O que a lagarta chama de fim de mundo eu chamo de borboleta. Despeço-me deles. Ainda preciso ver a Clarice que diz: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Encontro Thiago que me oferece seu disco Mormaço na Floresta. Autografa, dizendo: “ Sabemos que é a água que dá à planta o milagre da flor”. Saio feliz, lembrando que tudo é permitido: “Só uma coisa é proibida: amar sem amor”! Talvez não seja só e sem ninho que a águia voará rumo ao sol.

Publicado no Jornal de Arcoverde - Vidráguas
Livros mencionados: O ABC de Castro Alves de JorgeAmado
O Profeta de Kalil Gibran
Cecília, Djavan, Thiago de Melo, Clarice...(Isso é usado em minhas aulas de Literatura Brasileira para mostrar as diferenças de gêneros literários e de pensamentos de acordo com a Escola Literária a que cada um pertenceu...). Se bem que Clarice não nasceu aqui mas pertence à nossa literatura...e nem Gibran nasceu...

[Por Antonia Lima]
Imagem daqui

1 comentários:

  1. Estava com saudade dessa crônica escrita em 1984.
    Perdi entre tantas...
    Preciso continuá-la...
    Eita, nós, sonhadores...

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