Um conto de fadas particular

19/06/2012


Praquela menina, dormir era sempre parque de diversões ou circo encantado. Ela nunca dormia sem sonhar. Nunca. E também nunca se incomodara com isso, até o dia que sonhou com o último sonho. Seus sonhos eram maravilhosos e fantásticos, como todo sonho de uma garotinha de voz doce tem que ser, mas sempre diziam a verdade. E ela sonhou com o último sonho. Assim ela o sentiu, o último sonho, como quem sente raiva ou coisa queimando a pele, doendo.

Nesse dia, ela acordara diferente, achando que o preto estava ainda mais escuro e que fim-do-mundo era o nome de um brinquedo de criança. Acordara para nunca mais dormir, pois não saberia não sonhar. E, sempre que fechava os olhos, sentia aquela estranha sensação de quem está perdido em um pesadelo e não consegue encontrar saída para o acordar, mesmo estando acordada. Então não dormia e travava luta incessante e dolorosa contra a noite que teimava em fazer o sol se ir e o cansaço se chegar.

Assim ficou, dias afim. Sem dormir, sem sonhar, sem viver. Até que, de tanto batalhar sozinha contra todo universo, que nem precisa se esforçar para derrotá-la, adormeceu. E, depois de muito dormir, acordou exausta. Acordou de um sonho de luzes apagadas, como se fosse película gasta de tanto exibir filme sem imagens e canções. Dormir era cinema mudo. Cinema cego.

Mas ela nascera para sonhar, e, como criança traquina que engana babá malvada, fugiu daquele pesadelo. Aos poucos, foi lendo livro que fazia imaginar, escutando música que conseguia tocar, falando com pessoas que diziam mais do que queriam dizer, e, à medida que crescia de tamanho, aumentava também seu dom de sentir coisas. E, quanto mais sentia, mais acumulava impressões naquela cabecinha sonhadora.

Então, um dia, sem sequer esperar, sonhou. Sonhou acordada. Sonhou simplesmente pensando em sonhar. Sonhou que sonhava. E sonhou sempre mais e mais alto e agora dormia só para parar de sonhar um pouco. Dormir para acumular mais sonhos para o dia seguinte. E, hoje, mulher crescida, mas ainda uma jovem moça, sonha tanto e tão bem que divide. Divide porque sabe que quem sonha tem tudo para realizar o que quiser.

Hoje, sonha, realiza e divide. E nós estamos aqui sonhando através dela também.


*Esse texto não é uma biografia da verdadeira moça do sonho, a Du, mas foi sim feito pensando nela, que é uma moça que sonha sempre e que eu admiro muito.

[Por Camila, do blog Meu Conto de Fadas Particular, escrito em 16 de dezembro de 2008 - Saudades imensas desta menina poeta!]


^ Suba