Quer ouvir seu coração?

23/08/2012



O dia amanheceu sem cor e sem nenhum rosto nas janelas. Tudo parecia tão tranquilo, cinza e quieto demais. Nem os cachorros apareceram, nem Seu Oswaldo e sua bengala caminhando devagarinho, desviando das pedras. Um silêncio incomum para o horário. O que estava acontecendo?

Observando com surpresa e ouvindo os sons que só o silêncio é capaz de produzir, ele abriu mais a janela, colocou a cabeça pra fora e esticou os braços, sentindo o vento gelado e uma sensação maior ainda de vazio, respirou fundo de olhos fechados e assim aproveitou aquele momento que só podia ser mágico. Se pudesse voar, ele voaria até o prédio do outro lado da rua, onde ela deveria estar neste mesmo instante se espreguiçando na cama, não querendo levantar apesar do despertador insistir em avisar que estava atrasada. Ele voaria para lá e não deixaria que ela saísse da cama, ficaria ali abraçado a ela sentindo todo seu corpo enroscado ao dele, em perfeita sintonia de abraços e beijos, sem hora pra terminar.

"Mas que droga", ele não sabia voar e, mesmo que soubesse, ela jamais permitiria tamanha ousadia! Tudo bem, ele continuaria sonhando e esticando os braços na janela como se pudesse tocá-la, mesmo que ela nunca soubesse dos seus devaneios. "Quem mandou ser tão idiota?"

"Acorde, homem!" Ele disse pra si mesmo num rompante de indignação, fechando a janela com força. "Mas que diabos está acontecendo comigo? E que silêncio é esse?"

Como ouvir seu próprio coração quando tudo o que se quer é esquecer?

Ah, a música resolveria esse constrangimento. Mas não poderia ouvir nada que fizesse lembrar da doçura de sua amada… "ouvir o quê, se todos os discos foram presentes dela?"

Ok, a televisão!

"Arghh, corrida de Fórmula 1 não, please! Desse jeito vai ser difícil aguentar. Como uma mulher podia gostar de assistir uma coisa assim?" Ela gostava…

Foi para a cozinha aquecer a água, fazer um café e ler o jornal como uma pessoa equilibrada faria num dia tranquilo desses. Mas ele estava a ponto de explodir, não sabia o que pensar, nem como agir. Largou tudo ali e foi para o quarto, deitou na cama e reviveu toda a situação que provocou o afastamento deles. Ele tinha sido uma “besta quadrada”, sem dúvida! Agora não tinha mais jeito, ela já amava outro e a culpa era única e exclusivamente dele…

Pronto, os cachorros começaram a latir, as buzinas dos carros e a loucura de sons lá fora começaram a atordoar seus pensamentos, mas ele finalmente entendeu.

Quer ouvir seu coração? Fique em silêncio.

[Dulce Miller]

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