O sonho da Menina

27/10/2012



A moça do Sonho e o sonho da Menina 

[por Antonia Lima]


Ao dormir, adentrei no sonho da moça que, naquela oportunidade, desejava conhecer o sonho de uma menina que gostava de escrever. Pisamos num chão vermelho, sua terra natal, antes Vila Bela, hoje uma bela duma Serra Talhada por Deus às margens do Rio Pajeú, o mesmo rio que o Luiz Gonzaga canta em Riacho do Navio. E a encontramos. Filha de comerciantes de tecidos, esta menina passou sua infância numa cidadezinha chamada Betânia, cujo padroeiro era Santo Antonio, o mesmo do dia 13 de junho, data em que ela nasceu! Por isso, o nome: Antonia! 

Cedo, foi alfabetizada; e decidiu que seria ou professora ou advogada. Mas as dificuldades eram muitas, pois ali só se estudava até a 4ª série e havia um único Grupo Escolar. As luzes, ainda, não eram acesas através da energia elétrica. Não havia sinal de TV. Nem linha telefônica. À noite, depois que desligavam o motor/gerador, era à luz de velas, candeeiro ou chaminé que esta menina lia. As novelas, ela as ouvia pelo rádio; a revista proibida na sua tenra idade era a Capricho (porque tinha fotonovela e beijos). Sempre inquieta e ansiosa, era uma criança curiosa em termos de estudos. Queria sempre mais do que a escola oferecia. Não lembra quando começou a escrever. Deduzimos que logo que aprendeu a ler, já fazia bilhetes/cartas para a sua mãe, seus tios; escrevia em seu pequeno diário e carregava na dramaticidade..Enquanto sua mãe recitava “A Lira dos Oito Anos” de Casimiro de Abreu, ela já havia decorado “O Bicho” de Manuel Bandeira. 

Embalada no sonho da moça, lembrou que aos dez anos de idade foi morar em Arcoverde pois precisava de uma cidade maior para continuar os estudos. E a família mais uma vez se retira para buscar “um futuro” para a filha primeira. Ação comum entre os nordestinos, essa de se “arretirar” para um outro lugar que eles pensam ser melhor! A cidade escolhida foi a chamada porta do Sertão, Arcoverde, assim denominada porque terra do primeiro Cardeal da América Latina. Lá, essa menina cresceu. Perguntamos o que de curioso ela tinha para citar desta época.

“Uma tarde, meu pai foi chamado à Biblioteca do SESC da cidade para autorizar o empréstimo de “Crime e Castigo” de Dostoiésvisk e “Mme Bovary” de Flaubert. À noite, não o deixei dormir com medo da velha assassinada. Também fiquei enjoada com a cena de envenenamento da Emma Bovary.” 

Tinha 15 anos de idade quando ganhou a coleção de Os Melhores da Literatura Brasileira e os 50 melhores da Literatura Universal, lembra ela. Enquanto suas amigas liam livrinhos de bolso e colecionavam a Revista Intervalo, da Jovem Guarda, ela devorava livros! Achou pouco, e começou lendo Os Pensadores... Pensava que seria advogada mas não havia lá, ainda, Faculdade de Direito. Começou a lecionar muito cedo, ainda estudante do Curso de Magistério. E outra disciplina não poderia ser: Língua Portuguesa! Fez Letras/ Licenciatura Plena, em Caruaru/ PE. “Faria de novo, diz ela, de tão encantador que este curso é.” 

E sua primeira turma de alunos foi formada por 40 comerciantes, colegas do seu pai que queriam fazer o Curso Supletivo no mesmo SESC, onde um dia foi repreendida por ler “cedo demais” o que não devia. Ela, com 17 anos, e eles (seus alunos) já bem mais amadurecidos. Enfrentou, perdeu o medo de ensinar a adultos! Aliás, nunca teve a oportunidade de ensinar às crianças porque ao ser contratada pelo o Estado, posteriormente, já começou como Professora de adolescentes do segundo grau. Casou e continuou a trabalhar. Ainda em Arcoverde, paralelo às atividades profissionais, participou de peças teatrais como atriz, diretora de peças e fazendo adaptações de romances para o teatro. Conta ela: 

“ Fui a Mulher do Padeiro em “ O Auto da Compadecida” (de Ariano Suassuna); a Nancy de “ Deus lhe Pague” (de Joracy Camargo); adaptei o livro O ABC de Castro Alves (de Jorge Amado) em peça de teatro e encenei com meus alunos. Transformava minhas aulas de Literatura em espetáculos; exagerava em contar biografias dos Escritores de todas as Escolas Literárias. E narrava as obras, analisava os personagens com um propósito de promover a leitura e a escrita”. E continua: “ao colocar meus filhos para dormirem, contava estas biografias como dramas. Ensaiava minhas aulas nessas horas. Eles aprenderam muito cedo as vidas (e mortes) dos escritores. E os resumos das obras, também. Ao mesmo tempo, enquanto ouvíamos uma sinfonia de Beethoven, eu contava a triste história dele, de sua surdez, para causar mais drama...e eles prestarem a atenção; contava toda a vida do músico. Conversava sobre várias vidas e obras dos escritores românticos da fase pessimista. Sobre a tuberculose que era o mal do século, sobre a luta pelos negros escravos de Castro Alves e de Tobias Barreto. Mas não ficava só por aí...quando falava sobre o Machado para dá ênfase até onde ele chegou (Fundou e presidiu a Academia Brasileira de Letras), eu falava que ele era mulato, muito pobre, epiléptico...e trabalhava numa tipografia..e, assim, eu já entrava no Realismo Brasileiro, outra Escola Literária; carregava minha prosa com tintas fortes...Assim discorria sobre a vida do Manuel Bandeira, do Graciliano, do João Cabral, entre outros. Meus filhos eram meus primeiros ouvintes, coitados! (Ou não!...) Nesta época, eu já lecionava em duas Faculdades. Claro que (em casa), eu mesclava com Literatura Infantil...e eles ouviam e cantavam os poemas de Vinícius daquele projeto “A Arca de Noé”...Liam infantis como “Ou Isto ou Aquilo” de Cecília, “Chapeuzinho Amarelo”, do Chico, etc,”. 

E A moça do Sonho pergunta como dava conta da escrita. E ela continua: “ Quando minha filha mais velha nasceu, depois de uma gravidez complicada, escrevi uma crônica ‘Pequenina Flor de Maio!’ Fui chamada para ler numa rádio local...foi uma comoção! Aí, não mais parei. Comecei a escrever para o Jornal da Cidade e ganhei um espaço na programação da Rádio local para redigir e apresentar ‘Palavras em Canto’! Paralela às minhas atividades nas escolas e, posteriormente, na Delegacia Regional de Ensino de Arcoverde, fui convidada para a Equipe Central da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco! Vim para Recife. Neste percorrer, fiquei à disposição da Secretaria do Trabalho e Ação Social e conheci melhor este mundo Trabalho x Emprego x Renda e as suas Relações Sociais. Também, durante quatro anos, coordenei projetos na Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania. É inesquecível. Educação, Trabalho e Justiça! Só que, sem a primeira, a Educação, não haverá nem trabalho nem justiça. Nada seremos!” 

E o sonho de ser advogada? – perguntamos. E ela completou: “Mais adulta e mais amadurecida, já com filhos mais crescidos, realizei meu antigo sonho ao cursar Direito. Mas nunca deixei de ensinar, pois esse exercício me faz aprender e apreender. Acho que meus cursos se completam e me completam. O que é peticionar, reclamar, apelar, agravar, embargar, recorrer? São verbos que indicam a ação de escrever. Não sei o que seria de mim sem meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus apontamentos. Mas sei que não viveria sem escrever e sem a palavra escrita! Claro que aqui falo de uma paixão! Família, ah, família é sagrado!

Manejar a palavra é manejar meu pão de cada dia. Escrever é um ato e um fato. É encantamento, é alimento, é prece, é vício, é remédio, é cura! Eu me afogo e desafogo, inspiro e expiro a arte maior com todos os seus símbolos, significantes e significados! Li outro dia que “sem advogado não há Justiça”. Eu diria que “sem professor não há advogado”. E acrescentaria: “sem a leitura e a escrita não há direito nem cidadania”!

E a moça do Sonho ao ouvir a realização do sonho da Menina foi em busca de outros sonhos. 

E eu, que tinha adentrado no sonho de A moça do Sonho, acordei.

Escrever este sonho me era uma urgência!

Imagem daqui


Antonia Lima é pernambucana da cidade do sertão do Pajeú, Serra Talhada. Menina, ainda, já demonstrava o amor pelas artes, especialmente, pela Literatura. Fez Magistério no Colégio Imaculada Conceição de Arcoverde-PE. Em 1975 concluiu o Curso de Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru-PE, onde também fez Pedagogia. Pós graduada em Língua Portuguesa pela UFPE e em Língua Portuguesa/Redação pela PUC/MG. Bacharel em Direito pela Faculdade Damas de Instrução Cristã. Professora de Língua Portuguesa, Linguística e Literatura. Produtora de textos e profissional liberal.Revisora de textos/ Redações de Pós graduação e de Mestrado.
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