As dores do mundo

29/11/2012


Schopenhauer já foi assunto de ótimas conversas com alguns amigos que gostam de filosofia como eu. O difícil é encontrar alguém que assuma que gosta das idéias deste que é considerado o filósofo do pessimismo e que soube dissecar como ninguém o outro lado do comportamento humano. Eu sou uma otimista incurável, mas quando li pela primeira vez "Dores do mundo", percebi que o mundo continua sendo motivo de dor e sofrimento e todas as afirmações ali contidas continuam hoje, sendo tão verdadeiras quanto na época de Schopenhauer... A coisa sempre esteve feia e assim permanecerá. Alguém duvida? Vejam só:


A VIDA É DOR

Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor.Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre.
A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da prêsa. A vida é uma história da dôr, que se resume assim: sem motivo queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim consecutivamente durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça.

DEUS, CRIADOR  

Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração. Se imaginássemos um demônio criador, ter-se-ia o direito de lhe censurar, mostrando-lhe a sua obra:  "Como te atreves a perturbar o sagrado repouso do nada, para criares este mundo de angústia e de dôres?"

NOSSO INFERNO 

O inferno de nossa vida supera o de Dante no ponto de que cada um de nós é o demônio do seu vizinho.  Há também um arquidemônio, a quem os outros obedecem: é o conquistador, que dispõe os homens uns em frente dos outros e lhes grita:  
"Vosso destino é sofrer e morrer; portanto, matem-se mutuamente".  
E assim procedem os homens.

O MELHOR DOS MUNDOS 

Se mostrássemos aos homens as horríveis dores e os atrozes tormentos a que está constantemente exposta sua existência, tremeriam de espanto; e se ao mais convencido otimista fizéssemos visitar os hospitais, os lazaretos, as salas de tortura dos cirurgiões, as prisões, os campos de batalha, os tribunais de justiça, os sombrios refúgios da miséria, e se por último, o fizéssemos contemplar a tôrre de Ugolino, acabaria por reconhecer de que modo é este "o melhor dos mundos possíveis".

A TRAGICOMÉDIA DE NOSSA VIDA

Vista e examinada minuciosamente de alto e de longe, a vida de cada homem tem o aspecto de uma comédia; em sua total consideração ou em seus aspectos mais dignos de apreço, se apresentará como uma contemplação trágica.
O afã e o trabalho de cada dia, os desejos e receios cotidianos, as desgraças de cada hora, os acasos da sorte sempre disposta a nos enganar são outras tantas cenas da comédia.  
As  aspirações iludidas, as ilusões desfeitas, os esforços baldados, os êrros que completam nossa vida, as dores que se acumulam até terminar na morte, o último ato, eis a tragédia.  
Parece que o destino quis juntar o escárnio ao desespero, e, fazendo de nossa vida uma tragédia, não nos permite conservar a dignidade de uma personagem trágica.  
Por isso é que em todos os atos da vida representamos o lamentável papel de cômicos.

DISFARCES DA DOR 

Nossos esfôrços para banir a dor de nossa vida não conseguem outro resultado senão o de fazê-la mudar de forma.  Em sua origem tomam o aspecto da necessidade, cuidado, para atender as coisas materiais da vida, e quando, após um trabalho incessante e penoso, conseguimos afastar a horrível máscara da dôr neste determinado aspecto, adquire outros mil disfarces, segundo a idade e as circunstâncias: o instinto sexual, o amor apaixonado, a inveja, o rancor, os ciúmes, a ambição, a avareza, o temor, a enfermidade, etc.  
Toma o aspecto triste e desolado do tédio, da sociedade, quando não encontra outro modo de se apresentar.  E se com novas armas conseguimos afastá-la novamente, recuperará sua antiga máscara, e a dança recomeça.

A FILOSOFIA NÃO É O CATECISMO 

Ainda ouvirei dizer que a minha filosofia entristece tudo, isto porque digo a verdade àqueles que só gostariam que eu lhes dissesse: "Deus, Nosso Senhor fez tudo muito bem".
Ide à igreja, e deixai os filósofos em paz, ou, pelo menos, não lhes exijam que ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo.  Recorrei aos filosofastros e encomendai-lhes teorias ao vosso gosto.  Não há nada que dê mais prazer ou que seja mais fácil do que perturbar o otimismo dos que ensinam filosofia.

Incoerentemente ao meu sagrado otimismo,
posso dizer sem medo de ser julgada: 
ADORO ler Schopenhauer!   

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