Fragmentos de Chico Buarque

14/05/2013


O que será ser só quando outro dia amanhecer? Será recomeçar? Será ser livre sem querer?

Quando nasci veio um anjo safado o chato dum querubim e decretou que eu tava predestinado a ser errado assim. Já de saída a minha estrada entortou, mas vou até o fim...

Oh, pedaço de mim, oh, metade afastada de mim, leva o teu olhar que a saudade é o pior tormento é pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar...

...Venha, meu amigo. Deixe esse regaço. Brinque com meu fogo. Venha se queimar. Faça como eu digo. Faça como eu faço. Aja duas vezes antes de pensar... Eu semeio o vento. Na minha cidade. Vou pra rua e bebo a tempestade...

...e se vai continuar enrustido com essa cara de marido, a moça é capaz de se aborrecer... Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz...

Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus, juro não acreditei.Eu te estranhei me debrucei, sobre o teu corpo e duvidei e me arrastei e te arranhei e me agarrei nos teus cabelos, nos teus pêlos, no teu pijama, nos teus pés, ao pé da cama. Sem carinho sem coberta, no tapete atrás da porta reclamei baixinho, dei pra maldizer o nosso lar, para sujar teu nome te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso pra mostrar que ainda sou tua, só para mostrar que ainda sou tua...

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...

A felicidade morava tão vizinha que, de tolo até pensei que fosse minha...

Quando amo eu devoro todo o meu coração, eu odeio, eu adoro numa mesma oração...

De todas as maneiras que há de amar nós já nos amamos. Com todas as palavras feitas pra sangrar já nos cortamos. Agora já passa da hora, tá lindo lá fora, larga a minha mão, solta as unhas do meu coração que ele está apressado e desanda a bater desvairado quando entra o verão...

Não, acho que estás só fazendo de conta, te dei meus olhos pra tomares conta, agora conta como hei de partir?

Por favor deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água...

Hoje na solidão ainda custo a entender como o amor foi tão injusto pra quem só lhe foi dedicação...

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu...

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é pra te dar coragem pra seguir viagem quando a noite vem, e também pra me perpetuar em tua escrava, que você pega, esfrega, nega mas não lava...

... Amando noites afora fazendo a cama sobre os jornais, um pouco jogados fora, um pouco sábios demais. Esparramados no mundo molhamos o mundo com delícias, as nossas peles retintas de notícias...

Mesmo em sonho estive atento para poder lembrar-te sempre...

Olhos nos olhos, quero ver o que você faz, ao sentir que sem você eu passo bem demais...Olhos nos olhos, quero ver o que você diz, quero ver como suporta me ver tão feliz...

O meu amor tem um jeito manso que é só seu e que me deixa louca quando me beija a boca. A minha pele inteira fica arrepiada e me beija com calma e fundo até minh'alma se sentir beijada, ai...

Ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça: Inútil dormir que a dor não passa. Espere sentado ou você se cansa. Está provado, quem espera nunca alcança.

Pense que eu cheguei de leve, machuquei você de leve, e me retirei com pés de lã. Sei que o seu caminho amanhã, será tudo de bom, mas não me leve...

Prometo te querer até o amor cair doente, doente... Prefiro, então, partir a tempo de poder a gente se desvencilhar da gente...

Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus...

Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito mais o que fazer, escuto a correria da cidade, que alarde! Será que é tão difícil amanhecer?

Hoje lembrando-me dela; Me vendo nos olhos dela; Sei que o que tinha de ser se deu; Porque era ela; Porque era eu...

Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz e atrás dessa mulher mil homens sempre tão gentis...

Sabia, gosto de você chegar assim. arrancando páginas dentro de mim. Desde o primeiro dia. Sabia, me apagando filmes geniais, rebobinando o século, meus velhos carnavais, minha melancolia. Sabia que você ia trazer seus instrumentos, Invadir minha cabeça onde um dia tocava uma orquestra... Sabia que ia acontecer você, um dia. E claro que já não me valeria nada tudo o que eu sabia.

Compositor, intérprete, poeta e escritor, Chico Buarque é hoje uma referência obrigatória em qualquer citação à música brasileira dos anos 60 pra cá. Sua influência é decisiva em praticamente tudo que aconteceu musicalmente no Brasil nos últimos 35 anos, pelo requinte melódico, harmônico e poético que suas obras apresentam.

Filho do historiador Sergio Buarque de Hollanda, morou em São Paulo, Rio e Roma durante a infância. Desde criança teve contato em casa com grande personalidades da cultura brasileira, como Vinicius de Moraes (que viria a se tornar seu parceiro), Baden Powell e Oscar Castro Neves, amigos dos pais ou da irmã mais velha, Miúcha, também cantora e violonista.

Em 1964 começou a se apresentar em shows de colégios e festivais e no ano seguinte gravou pela RGE o primeiro compacto, com "Pedro Pedreiro" e "Sonho de um Carnaval". Desde então não parou mais de compor e se apresentar, participando de festivais internacionais de música, atuando no programa O Fino da Bossa, da TV Record. 

Ainda em 65, musicou o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, que fez enorme sucesso no Brasil e na França, para onde excursionou, arrancando elogios até mesmo do poeta João Cabral, que admite só ter autorizado a utilização do poema por amizade ao pai de Chico. 

Com o Festival de Record de 1966 tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua música "A Banda", interpretada por Nara Leão, que conseguiu o primeiro lugar (empatada com "Disparada", de Geraldo Vandré e Theo de Barros). 

Sua participação em festivais foi definitiva para a consolidação de sua carreira. Fez sucesso com "Roda Viva", "Carolina" e "Sabiá", e defendeu ele mesmo suas músicas "Benvinda" e "Bom Tempo". Lançou LPs no fim da década de 60, fazendo shows na França e Itália, onde morou por aproximadamente um ano. 

De volta ao Brasil, fez música para cinema e gravou um de seus discos mais bem-sucedidos, "Construção". Várias de suas composições e peças de teatro tiveram problemas com a censura na época da ditadura militar, e chegou a usar o pseudônimo Julinho de Adelaide para assinar algumas de suas músicas, como "Acorda, Amor". 

No teatro, escreveu "Gota D'Água" com Paulo Pontes, e a "Ópera do Malandro". Como escritor, lançou em 1991 o romance "Estorvo" e, quatro anos depois, "Benjamin". Depois disso voltou a dedicar-se à música, lançando "Paratodos" em 1993 e "as cidades" em 1999, ambos com amplas turnês pelo Brasil e exterior. 

Em 1998 foi enredo da Mangueira, que ganhou o desfile daquele ano. Em 2001, Chico lança o DVD “As cidades”. Além do show "As Cidades", filmado em película, o especial traz cenas captadas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Entre as participações especiais estão Jamelão, a Velha Guarda da Mangueira e Maria Bethânia. 

O CD Duetos é lançado em 2002 e reúne 14 das mais de 200 participações de Chico cantando com outros artistas. Participaram do CD: Marçal, Ana Belén, Nara Leão, Zeca Pagodinho, Sergio Endrigo, Nana Caymmi, Johnny Alf, Pablo Milanés, João do Vale, Dionne Warwick, Miúcha, Tom Jobim e Elba Ramalho. 

O DVD “Chico ou o país da delicadeza perdida” é lançado em 2003. Neste trabalho, Chico Buarque estreou para a televisão francesa em 1990. Após 8 anos sem gravar um disco de inéditas, Chico Buarque lança o CD “Carioca” em 2006. São 12 faixas, algumas em parceria com ao artistas Edu Lobo, Ivan Lins e Tom Jobim.

Imagem daqui

3 comentários:


  1. BELO!!!
    Não há palavras para descrever, toda a emoção... ao ouvir a voz de Chico Buarque, e esse lindo poema...!

    beijo da Célia

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  2. Bom dia!
    Parabens por essa maravilha.
    Abraços Sinval

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  3. Muito bacana a sua postagem!
    Abraço,
    Zuza Zapata
    www.zuzazapata.com.br

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