Rabiscos do inv(f)erno

30/06/2013



Anoiteceu inverno. Amanheceu uma estação qualquer. Ela não percebeu que o dia havia chegado. E assim, descobriu que tinha se exilado entre muros rendilhados. Abriu os olhos. Sua derme sentia a delicadeza da brisa fria que soprava entre aquelas paredes que havia criado. Ali, criou uma falsa noção de que seria fácil derrubar as barreiras à sua volta. Tentou levantar. Caiu. Sentiu a delicadeza dos muros. Não permitiu que seus olhos alcançassem aquela estação que adoçava a sua alma. A oscilação da vontade contrariava o querer. Fechou os olhos. Sonhou acordada e elevando a alma redescobriu ser inverno e mergulhou na doce ilusão de que todo o prazer, todo o conforto podia existir dentro dele. Esqueceu os muros até o momento em que a erosão desfez todas as paredes.

Naquele instante, deixou-se ficar sentada, com seus braços envolvia os joelhos, como que protegendo algum tesouro ignorado. A luz lá fora era demasiado crua, cinza feria-lhe os olhos e a pele. Com um pedaço do muro, já quase pó, guardado na mão, permitiu sentir a estação e caminhou devagar para fora. Andando passo a passo entregando o corpo e alma ao inverno, que ao longe lhe estendia as mãos.

De súbito parou na porta sentindo o vento gelado cortando seu rosto delicado, neblina densa, intensa, parecia querer absorver sua alma inteira. E quem se importava? Não ela. Respirou fundo, sentou-se na calçada riscando o chão com o último pedaço de seu muro sagrado, fazendo alusão à sua inerente solidão. Riscou passado, presente e futuro, riscou o coração. Riscou tanto e tanto, virou borrão, poeira de giz em sua mão.

Onde estaria quem roubou seus abismos, quem levou para longe seus abrigos, abraços amigos... ela pensava e não concordava com o destino imposto. Sujeito-verbo-perfeito, sonhava acordada, sentia a conjunção das peles, relés corpos enlouquecidos pelos beijos entorpecidos de tanto querer e não puderam mais esquecer. Um em cada (en)canto, cada qual com seu pranto. Seria mesmo assim? Que fosse perfeito enquanto ilusão. Por que não?

Voltou para seu exílio, suas dúvidas e muros rendilhados que a protegiam do mundo. A sua alma fazia aquecer o inferno do seu inverno interior, não importava a estação.

[ Um texto escrito a quatro mãos, por Suzana Martins e (eu) Dulce Miller ]


Imagem daqui

3 comentários:

  1. Foi simplesmente maravilhoso escrever 'ao seu lado'. Sinto-me honrada a cada convite.

    beijos e muitos beijos pra ti.

    amo vc <3

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  2. Estranho e complicado sonho ! eu também não quereria acordar...É caso para dizer. ó vento, ó frio não batas á minha porta! preferia sentir-me protegida no aconchego...

    Beijo, Célia

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