15 de ago de 2013

Entender é sempre limitado...


Quando olhei pra você como quem pede socorro porque não entendia nada do que estava acontecendo, você simplesmente sorriu, virou as costas e saiu caminhando com seus passos irritantemente lentos e decididos, sem olhar uma única vez para trás. Eu faria o mesmo se pudesse, mas fui na direção oposta e corri, corri, corri ... o coração acelerado querendo rasgar o peito, rosto vermelho e respiração ofegante. Até que cansei.

O trem parou na hora errada e eu subi mesmo assim. É o que faço sempre. Não sei escolher a via. Não sei vasculhar o pior nas pessoas e acredito fácil em mentiras bobas. Mas por outro lado, enxergo o que ninguém quer ver e vejo e sinto tudo antes de acontecer.

Nunca mais sentei embaixo daquelas árvores nem voltei naquele lugar. Porque eu não posso e a culpa continua sendo somente sua.

E agora, redescubro minhas virtudes e questiono valores antigos. Como uma mudança de textura, algo conveniente. Todas as vidas em uma só e todo o tempo que foi perdido, aflorando em idéias novas e sem sentido algum. Pensamentos reciclados na porção confusa do ser que habita em ruas estranhas.

É isto, sou uma estranha. Tão comum que passo incólume e despercebida na multidão. E o que eu faço com esta vontade de não fazer nada que não passa?

Não responda. Não fale comigo se não me conhece, porque o mau humor aflora e me vingo de todos os silêncios contidos. E se me conhecer um pouco, vai esquecer tudo e me deixar só com meus pensamentos!

É hora de apagar a luz e dormir ajuda a esquecer. A cortina desceu faz tempo, mas isto já não é mais novidade.

Azar de quem fica sem entender.
Eu também não entendo.

[Dulce Miller]


Não entendo
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

[Clarice Lispector]

Imagem daqui e daqui

1 comentários:


  1. Virar as costas á vida...?
    --- Isso dormir...,o travesseiro é um bom conselheiro...

    "Bjs Dulce "
    « Célia.

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