Paz que excede todo o entendimento - por @laionmonteiro

14/12/2013



Amigo

Com frequência não vivemos o presente por causa da ansiedade. E digo não da ansiedade natural (a expectativa da qual não conseguimos nos livrar, visto que ela é filha do desejo, e somos seres desejantes), mas de uma ansiedade doentia, que advém da desconfiança. Ficamos ansiosos porque queremos controlar todas as variáveis da vida; e quando vemos que isso é impossível, nos desesperamos. Soma-se a isso três coisas que parecem afetar a todos nós: o medo da solidão, a necessidade de se sentir amado e a busca por segurança.

O passado e o futuro, apesar de plásticos, podem ser tocados, vislumbrados. Mas quando a busca por um ou por outro torna-se uma busca impaciente, sôfrega, nosso ser começa a se angustiar, e isso nos prejudica.

Só há uma dimensão que oportuniza nossas saudades: o passado.
Só há uma dimensão que permite nossos planos: o futuro.
Só há um lugar onde ambas acontecem: o hoje.

Viver o hoje não é abrir mão do ontem, o que poderia nos fazer cínicos; tampouco desistir do amanhã, o que poderia nos fazer amargurados; mas relembrar ou planejar sem com isso trair o presente. 

É porque faço do amor (não do amor romantizado, mas do amor como nervosa e radical entrega - doação) minha única lei - e se assim posso dizer, minha única religião - que trilho o caminho que o próprio amor me leva: o da paz; não a paz como ausência de conflitos, mas a paz como descanso inexplicável em meio à tribulação.

Porque amar é uma decisão unilateral, porque amar é um gesto meu de consideração pelo outro, pelas coisas e pela Criação, porque amar é algo que brota de mim como vontade a despeito do outro que eu tenho a plena consciência de que meus gestos de amor podem não ser retribuídos - quando amo, não faço um contrato com o outro para me recompensar; faço porque sou, e quando não amo sempre sou menos do que posso. Isso não significa dizer que a reciprocidade não é bem-vinda. Quero apenas dizer que, muito embora a reciprocidade seja bem-vinda e saborosa, não é ela quem dá as cartas para eu amar. Portanto, o que sabe aquele que ama senão saber que tudo o que ele fizer, justamente porque ele faz sem ninguém pedir, pode ser relegado ao esquecimento? O que sabe aquele que ama, que faz, que age e reage conforme o amor senão que ele pode fazer tudo sem que ninguém o recompense? A falta de recompensa - seja do amor, seja da vida - é a solidão que mais tememos. Assim, nos tornamos escravos da política de troca. Quando não há a troca, a solidão então se arvora. Quando sou livre, quando não faço porque necessariamente receberei algo em troca, existo em pura solidão, e em companhia verdadeira! É preciso nos reconciliarmos com a finitude das coisas e com a solidão para que elas não sejam o horizonte perverso a nos guiar. 

É porque tenho a consciência (que se renova em mim diariamente) de que há Um maior que me ama, que me amou primeiro, que me amou ainda antes de eu amá-lo, que todos os amores da vida podem ser vivenciados com inteireza e intensidade; mas sem o medo de não ser amado ou aplaudido. Uma pessoa que quer sentir-se amada é capaz de muitas coisas, inclusive de usar o amor ou a desgraça fingida como artifício para atrair para si todos os olhares (eu mesmo já fiz isso). É porque hoje tenho a consciência de que há Um que me ama, e me amará ainda que eu o traia, que caminho em descanso - acompanhado quando possível ou sozinho quando necessário. 

É porque tenho a consciência de que não controlo todas as variáveis da vida que vou abandonando a busca por segurança infantil. O que mais vemos senão pessoas que têm sua segurança nas coisas que elas possuem e não naquilo que elas são? Obviamente há uma necessidade natural em nós de controle (um mínimo controle): para eu estar aqui escrevendo eu preciso controlar a bateria do computador, as palavras a serem usadas, a iluminação adequada no quarto onde estou etc. Obviamente precisamos controlar algumas coisas como mero meio de sobrevivência. Mas desse ponto até a busca por segurança que faz querer controlar tudo à volta, inclusive as relações, há uma distância imensa. Posso amar, mas não posso querer que me amem de volta ou me amem como eu amo; posso buscar trabalho, mas não posso fazer com que me contratem forçosamente; posso me movimentar, mas não posso fazê-lo se eu tiver algum problema físico; enfim, posso ser, a menos que algo me impeça de ser. Vejo a maioria de nós (estou incluído nisso) deixando de ser e se desesperando querendo mudar o que não é. Cabe a pergunta: O que depende de mim tenho feito com todas as minhas forças? Se não, posso estar sendo preguiçoso ou covarde; mas se sim, o que mais posso fazer? Nada. Resta apenas aprender a descansar como as árvores descansam à beira de precipícios, como os passarinhos que descansam nelas mesmo em meio ao desfiladeiro. Resta apenas amadurecer e aprender que coisas se controlam, mas nem todas. Sempre que a busca por segurança pedir como pagamento a negociação dos nossos valores e a restrição perversa da nossa liberdade é saudável se perguntar se tal busca não vai nos amesquinhar.

Três coisas: medo da solidão, necessidade de se sentir amado a todo custo e busca doentia por segurança. Tais coisas levam à ansiedade, ou mesmo são frutos dela. 

Amadurece não o cínico, visto que maduros podemos ser ainda piores do que éramos quando ingênuos; amadurece quem aprende a confiar.

Olhe as flores, os pássaros, eles não trabalham, mas são alimentados pela graça que parece escorrer do céu. O seu valor não excede em muito o dos animais? Certamente! Se eles são alimentados, quanto mais você. Basta a cada dia sua sorte. Que você e eu aprendamos a não andar ansiosos pelo que haveremos de comer ou beber ou vestir. Com todos os problemas que tivemos, por acaso deixamos de comer ou beber ou nos vestir algum dia? Sobre todas as coisas, ainda comemos, bebemos e nos vestimos. Se com luxo ou sobra não sei, mas de uma maneira que nos basta.

Você não precisa se culpar pelos momentos de tristeza. Diria apenas para não deixá-los serem maiores do que todo o resto. É isso: há todo um resto. E às vezes esquecemos.

Você me diz, "Viver o presente deve ser um exercício diário, mas pra quem não está acostumado é bem complicado". Não há como discordar de você. É exatamente isso.

Tudo o que escrevi aqui é parte do que há em mim, amigo. Não escrevo tais coisas pedindo para que você as tome; escrevo simplesmente como quem divide experiências, certezas, intuições e enxerga nisso um gesto de amor. Não julgo ter alcançado o que te disse, mas estou tentando dia após dia. Não julgo ter alcançado, mas uma coisa eu faço: deixo para trás de mim o que já não pode ser vivido e prossigo rumo ao alvo que norteia minha vida. Isso porque estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o passado nem o futuro, muito menos o presente, nem escassez nem privação, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus.

Nisso eu descanso.

Com carinho,
de quem é mais um,
seu amigo,

Laion

Laion Monteiro escreve no blog dele e no Diversidade Convergente.

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