Deus nos deu asas mas as religiões inventaram as gaiolas...

03/02/2013

Foto que eu tirei, de dentro da Catedral

Eu fui batizada católica, fiz a primeira comunhão (porque não tive escolha) e no mesmo dia fiz a única confissão a um padre. Raramente ao ir à missa nos domingos, eu comungava. 

Na minha adolescência aconteceram alguns episódios 'estranhos' que me fizeram interessar bastante pelo espiritismo e diante da diferença radical entre uma religião e outra, comecei  literalmente a devorar livros sobre o assunto. Frequentei alguns centros espíritas, recebi  passes, ouvi palestras, mas eu ainda não me 'encontrava' entre eles. 

Certa vez fui conhecer um centro de umbanda com algumas amigas que frequentavam o lugar. Tudo muito interessante, instigante, curioso... mas e eu? Aquilo tudo não fazia parte da minha essência e eu não precisei frequentar mais que três vezes para ter certeza absoluta que de minha parte, não existia fé alguma ali.

Num outro momento (uma única vez bastou) fui numa igreja luterana da qual não recordo o nome completo,    mas lembro perfeitamente que lá havia um pastor que colocava as duas mãos na cabeça de algumas pessoas  e com palavras que mais pareciam gritos, dizia estar exorcizando demônios das pobres vítimas 'dominadas' por 'eles'. Os fiéis choravam e se contorciam, alguns caiam no chão como se estivessem tendo uma espécie de convulsão e o pastor era o enviado de Deus para curá-los, conforme ele mesmo repetia o tempo todo e eu nunca mais esqueci - acho que fiquei meio traumatizada com esta experiência! Nada contra quem acredita e respeito a crença de qualquer pessoa, assim como espero ser respeitada pela minha forma de pensar e sentir.

A velha sensação de que 'eu não sou daqui' e 'o que é que eu estou fazendo aqui' continuava desde a igreja católica eu me sentia perdida, sozinha, desamparada.

Continuando a saga em busca da minha fé (ou de mim mesma) um dia vi um cartaz colado num poste no centro da cidade falando em Gnose e aquilo me interessou muito por ser um 'contraponto' à qualquer outro tipo de  religião que eu já conhecia. Na época fui a várias reuniões onde aprendi a meditar, fazer técnicas coletivas de concentração, respiração, relaxamento e finalmente aprendi o quanto o silêncio e a música são importantes na minha vida.  Este tempo foi especialmente gratificante, aprendi bastante, mas também passou.

Entre minhas tentativas de conhecer as religiões e consequentemente entender o significado de Deus na minha vida, descobri que a minha força (contrariando minha busca) está na solidão. O autoconhecimento  me fez acreditar e ter muita fé naquele Deus que eu buscava em todos os lugares mas que sempre esteve na verdade, dentro de mim.

Um exemplo de hoje:

Desde criança criei o hábito de ir na Catedral Metropolitana de Porto Alegre nos horários em que a igreja estava vazia (eu tinha uns 9 anos, morava e estudava bem perto) e ficava sentada lá durante um bom tempo, só pensando. Fiz isso muitas vezes durante minha vida inteira e foi o que fiz hoje também, logo que minha nora teve alta do hospital depois de ter perdido o bebê dela, seria uma menina e estava com quase seis meses de vida. Perdi minha primeira neta sem ter tido a oportunidade de conhecê-la. Meu filho perdeu sua filha e eu perdi uma parte dele que era minha. Eu precisava muito ficar sozinha depois que tudo passou. E então fui para a catedral chorar, refletir e colocar 'a cabeça no lugar'.

As últimas semanas tem sido insuportavelmente quentes nesta cidade, hoje pela manhã na hora em que fui à igreja meu corpo respingava suor. Quando entrei, só haviam quatro pessoas na catedral imensa e todo silêncio que eu precisava. E haviam dois ventiladores ligados, somente dois na catedral inteira! Lógico que eu sentei perto de um deles porque eu já estava quase desmaiando de tanto calor e tristeza... e eu fiquei ali sentada e esqueci do tempo. Duas das pessoas que estavam ali foram embora e ficou só um rapaz uns dois bancos  na  minha frente. Ele estava chorando baixinho, dava pra perceber nitidamente. Eu até pensei em conversar com ele, perguntar se podia ajudar de alguma forma, mas depois cheguei a conclusão de que se ele estava ali, deveria ser pelo mesmo motivo que eu - ficar sozinho, ter um pouco de paz. Então voltei para meus próprios pensamentos... até que um funcionário da igreja desligou os dois ventiladores, tirou da tomada e sem sequer olhar para o nosso lado, saiu caminhando como se nós não  existíssemos ali. O rapaz que naquele momento estava ajoelhado e de cabeça baixa rezando e chorando, quando sentiu que desligaram o nosso 'vento' levantou a cabeça, olhou para mim tão espantado quanto eu e simplesmente fechou os olhos em sinal de desalento, sentou no banco e olhou pra cima como se perguntasse a Deus qual a necessidade daquele ser humano imbecil ter desligado o ventilador que estava bem na nossa frente, refrescando nossas dores... pelo menos foi o que eu pensei.

Entenderam?

Eu não vou à Igreja para buscar Deus. No caso,  fui porque lá eu teria um lugar onde eu poderia chorar discretamente em paz. Um lugar onde eu poderia ficar o tempo que quisesse com os olhos inchados e vermelhos sem ser julgada, sem ninguém pra me perguntar o que estava acontecendo, porque eu não queria falar. Eu só queria paz. E me refrescar um pouco também.
Mas pessoas insensíveis a gente encontra em qualquer lugar e uma igreja não deixa de ser um grande negócio (ou comércio, como queiram).

Deus não está na religião
não está nas Igrejas
não está nos templos
nem em lugar algum fora de nós mesmos.
Deus é música
é poesia
é literatura
é silêncio
é solidariedade
Deus não é malvado
não castiga ninguém
Deus é  energia cristalina e pura
é natureza
é o (a) mar.

Depois de tantas buscas de uma religião que se adequasse ao meu jeito de ser,  hoje  posso afirmar com o amor mais puro do mundo que tenho uma fé imensa, que eu acredito sim e muito na energia que emitimos e que recebemos, que eu acredito mesmo que quem tem fé não precisa ter medo de nada, muito menos da morte. Que não existe religião que me convença, que manipule meu cérebro... por que graças ao Deus em que eu acredito,  nasci  um ser que gosta de pensar por si, que não aceita ideias prontas como fatos incontestáveis.

Eu não preciso de religião. Eu só preciso de AMOR e é o que TODOS nós precisamos, sem exceção, em união. E Deus é o AMOR em forma de energia que não podemos ver, mas sentir de forma plena e feliz no coração. Sempre que fecho os olhos e sinto que sou amada, sempre que vejo algo esplendoroso através da natureza, sempre que converso com crianças, Deus está ali... está nos olhos do meu filho e também no abraço fraterno dos meus amigos... sempre e de tantas formas Ele diz 'Estou contigo'.
Deus está  aqui, agora. E eu acredito.

[Dulce Miller]

Então o Rei lhes responderá: 
'Eu garanto a vocês:
 todas as vezes que vocês fizeram isso
 a um dos menores de meus irmãos, 
foi a mim que o fizeram.'

Mt 25,40

*Deus nos deu asas mas as religiões inventaram as gaiolas.
[ Rubem Alves ]

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