Sobre o ato de comunicação

22/02/2013



Todo o ato de comunicação requer, necessariamente, pelo menos dois elementos: um EU (emissor) e um TU (receptor).

O ato comunicativo nasce de uma intenção de uma pessoa (emissor) de transmitir uma mensagem à outra pessoa (receptor). Seja oral ou escrita, a comunicação é complexa, pois exige alguns requisitos para que seja minimamente eficaz: precisa de que as pessoas implicadas tenham um conhecimento de mundo comum entre elas (referente ao contexto pertinente à mensagem), um código comum (normalmente a língua que utilizam) e um canal (fala, escrita, mímica, etc) que sirva de veículo entre um e outro. Se um desses requisitos falhar, com certeza a comunicação perderá em qualidade, ou mesmo se perderá.

Se emitirmos uma mensagem a um determinado interlocutor, nossa linguagem – nosso material para este fim – terá de ser arrumado de acordo com a relação que mantivermos com aquele receptor. Por exemplo: no texto que escrevo para o meu pai utilizo uma abordagem da mensagem muito diferente, na grande maioria das vezes, daquela que eu utilizo em um texto endereçado ao presidente da empresa em que trabalho. No ato comunicativo, queremos sempre que o nosso interlocutor entenda a mensagem que passamos, por isso, adequamos nosso material a quem dirigimos a mensagem.

Ora, se o ato comunicativo acontece em ambiente de confiança mútua, a mensagem e a forma de passá-la terão campo muito fértil tanto para a emissão, quanto para a escuta, até porque, a própria interação vai facilitando e possibilitando o aprofundamento da troca de que resulta a comunicação. Se, entretanto, o ambiente em que este acontece é hostil, árido, ameaça a integridade da mensagem e/ou do emissor, com toda a certeza, o ato comunicativo ficará restrito a apenas um percentual de toda a sua potência.
Já que a mensagem que emitimos, antes de chegar ao outro, passa pela nossa escuta interna, precisa também que nos autorizemos a ouvi-la (porque há mensagens que interditamos até para nós mesmos) para depois, então, nos permitirmos a exposição (não só da mensagem, mas de nós mesmos – nossa expressão somos nós) ao outro.

Como vemos, a comunicação é complexa e profunda, pois envolve dois indivíduos com histórias de vida diferentes interagindo, ou melhor, dois mundos distintos em interação.
Usando um exemplo muito comum, retirado do ambiente escolar, por onde circulo no dia a dia:
- o professor lança uma pergunta qualquer. É comum o aluno saber responder, mas não ter certeza absoluta do seu saber e o ambiente da sala de aula o ameaçar (- E se eu errar? Vão rir de mim, vão dizer que sou burro, o professor vai achar isso, aquilo,...) PRONTO! Já bloqueou todo o conjunto de requisitos necessários a uma comunicação eficaz.

Por isso, existe tanta diferença entre os atos comunicativos de uma mesma pessoa. Eles estão intimamente ligados às relações nos quais acontecem. Por isso, é perfeitamente compreensível o porquê de o aluno utilizar tão menos potencial do que poderia nos seus textos, é que os interlocutores (incluindo até professores) com as ameaças que oferecem levam-no a bloquear sua expressão – bloquear a expressão pode ser uma tentativa de se proteger, se resguardar.

Um conteúdo daqueles mais profundos, então, mais íntimos requer ainda mais cuidado do emissor no que concerne a tudo o que permeia o ato, tendo em vista que implica em confiança (com-fiança) e entrega. Eu me entrego a quem, com sua escuta, acolhe e fortalece a pessoa que sou, e, acima de tudo, respeita o que eu estou entregando.

Há conteúdos que são tão nossos, tão profundos, que não nos permitimos entregar em público de jeito nenhum; precisamos de um interlocutor especial, em uma relação especial, cujo ambiente de escuta também seja especial, acolhe-dor e íntimo, além de um canal (diálogo falado, diálogo escrito, expressão corporal, etc) fluente para o fazermos, ( o canal de interlocução direta é fundamental para estes casos) sob pena de muitas mensagens se perderem e muito mal entendido acontecer. Às vezes, este ambiente só é conseguido em um seting terapêutico...

Continuo acreditando nas relações que se edificam através da riqueza da comunicação, da confiança conquistada a cada passo, que permite entrega e enriquecimento e, simultaneamente, constroem uma interação singular e forte - cumplicidade - que nos permita SERMOS através de nossa mais genuína expressão!
Porque nossa expressão é o nosso próprio estar-no-mundo!


[Texto de  Lila Marques, professora de Português e Literatura e Poetisa.]

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