Adeus ao sinto muito do meu jeito!

25/03/2013



Porto Alegre, 28 de novembro de 2010


Querido Ricardo!
Faz muito tempo que penso em escrever, mas hoje tive um incentivo a mais além da saudade, uma coisa importante pra contar! 
Veja você como são as coisas! Foi num porre de vinho que tomei sozinha em casa, que percebi o quanto ainda sinto saudades. E foi no meio desse mesmo porre que chorando eu ergui as mãos para o alto em agradecimento ao amor que vivi - uma cena ridícula lembrando agora, enfim...
Naquele momento eu me fiz as mesmas perguntas: Por que tudo tem que ter um fim? Mas por que mesmo, se eu era tão feliz? Bom, acho melhor omitir aqui as respostas que eu mesma declamei em alto e bom tom - outra cena ridícula de lembrar - não ia ser legal repetir os palavrões que profanei, não é mesmo?
Tá bom... vai me dizer agora que você nunca sofreu por amor? Vai me dizer também que nunca fez bobagem depois de beber além da conta?
Mas fique tranquilo, desta vez não fiz bobagem nenhuma, foi só um fiasco interno. Acho que chorei alto sem parar durante quase uma hora pelos meus cálculos... nem sei de onde saíram tantas lágrimas aliadas à vontade de relembrar os bons momentos. Acho que estava tudo reprimido, afogado, congelado, sei lá... de repente eu percebi que fugia o tempo todo dos meus próprios pensamentos, acredita? Só sei que hoje me sinto melhor, apesar da ressaca ser mais moral que física.
Acordei do porre e de todos os sentimentos vomitados com uma vontade imensa de te escrever e contar deste meu alívio. Parece que consigo ver sua expressão de interrogação a perguntar: “Então... agora consegue perdoar?” E eu continuo dizendo que NÃO. Talvez eu não seja capaz de perdoar nunca. Bem que eu queria ter esta grandeza de caráter mas não tenho, lamento... um dia, quem sabe?
Agora, no final das contas eu me vejo com saudades do que vivi, sim... mas plenamente consciente de que não estou mais apaixonada, porque eu não sou burra nem masoquista. Você vivia repetindo isto, lembra? Pois então, agora eu acredito! E também não vou me transformar numa mulher revoltada nem amargurada. Não mesmo. Estou pronta para amar e se for o caso, quebrar a cara de novo quantas vezes forem necessárias! 
Amor é vida, paixão é vício e foi justamente com você e com sua sede de viver que aprendi isto. Lembra do poema da Elisa Lucinda que você me enviou na sua última carta? Então… ele é perfeito para mim agora! Bom, melhor parar por aqui porque já escrevi demais por hoje!
Obrigada por ser meu porto seguro onde eu posso sempre ancorar minhas alegrias e minhas tristezas! Um beijo da sua irmã caçula, que te adora e morre de saudades! Me escreve logo, tá? 
Júlia.



[Dulce Miller]



Safena

Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.

Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!

Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.

Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito

Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões

Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo

Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate

O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.

[Elisa Lucinda]

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