Sorrisos achocolatados, quem quer?

09/07/2013


Eu tinha 9 anos e normalmente ria de qualquer coisa, sempre brincando com meus amiguinhos da escola ou com os professores, era uma legítima “serelepe”. Um dos alunos que se sentava ao meu lado levava chocolates na mochila e vendia pra turma toda, eu era compradora assídua, chocólatra assumida desde então... o nome dele era Júlio, um menino pobre e triste, muito sério e inteligente, meu melhor amigo. O Júlio tinha um problema sério, ele não sorria nunca, nunca mesmo! Por mais que eu tentasse, não conseguia ver alegria naqueles olhinhos negros e assustados. Um dia, na hora do recreio, ele confessou que roubava de um mercadinho perto da casa dele os chocolates que levava pra vender na escola e que depois entregava o dinheiro pra  mãe (que era doente) comprar comida pra ele e os irmãos. Então fiquei mais assustada ainda, quando ouvi dele a pergunta que me deixou traumatizada: “Tu não tem problema nenhum, né Du? Tu tá sempre rindo de tudo, né?”. Ele fez essa pergunta com lágrimas nos olhos, olhando no fundo dos meus, que nesse momento choravam também.

À partir daquele dia eu não conseguia mais sorrir na escola nem fora dela, inconscientemente em respeito ao meu amigo. Os colegas estranharam, a professora chamou meu pai pra conversar, mas eu dizia que estava tudo bem… e estava mesmo, com a diferença de que eu não era mais a menina feliz que alegrava a turma inteira com tantas risadas sem sentido (?). Meu único objetivo era tentar fazer o Júlio sorrir me entupindo de chocolates: comprava pra mim, para os professores e para os colegas também.

Durante uns dias ele faltou às aulas e quando voltou, nunca mais levou chocolates; pegaram ele roubando e contaram para a mãe. Ele mentia pra ela que ganhava o dinheiro pedindo na rua. Tentei ajudar, disse que ia pedir para o meu pai, mas o Júlio não quis, disse que já tinha arrumado um emprego de ajudante numa obra perto da casa dele. Onze anos ele tinha e tantas mentiras, tanta tristeza…

Sem jamais saber, o Júlio criou sem ferimentos uma cicatriz enorme no meu coração. A ironia dessa história é que eu tinha SIM motivos pra sofrer. Na época, havia uma madrasta na minha vida que ao meu ver, era pior  que a da Branca de Neve. Ela só não tentou me matar, mas de resto não perdia em nada comparando as maldades. Meu pai (que sempre foi um homem de grande coração) saía de casa bem cedo pra trabalhar, voltava muito tarde e não sabia das surras que eu levava toda vez que reclamava qualquer coisa pra ele. Na verdade ele nunca soube, nem o Júlio, nem mais ninguém. Até hoje.

Eu era uma 'engolidora de sapos' perfeita para a idade que tinha. Ir pra  escola era minha maior alegria, amava estudar. E continuei amando os livros apesar dele, do meu amigo que não conseguia sorrir porque era pobre demais e se sentia culpado (com toda razão) por ter que roubar pra sobreviver e por isso mesmo, não sabia sonhar.

Já eu, sonhava muito com uma vida melhor e mais bonita, mesmo que inventada. Na prática, eu fazia apresentações de dança, jogava vôlei, escrevia poesias toscas no jornal do grêmio estudantil, tentei o teatro (mas isso não deu certo, foi um grande fiasco)… pensando bem, talvez isso explique muita coisa na minha vida… pois é.

Depois daquele ano, mudei de endereço e de escola, nunca mais soube notícias do Júlio, mas jamais  esqueci da tristeza que ele plantou dentro de mim, e agradeço o que ele fez.

Sim.

Graças a ele percebi que eu não era a única a sofrer, senti as dores de um mundo inteiro dentro do meu pequeno coração e, ao mesmo tempo, um certo orgulho por conseguir driblar minha dor de forma a não contaminar os outros à minha volta. O Júlio me ensinou a ter uma consciência solidária, isso é fato. Com o passar dos anos, fui resgatando a alegria da minha essência, da minha personalidade.

Quem me conhece hoje sabe que tenho uma natureza engraçada e feliz, apesar de todos os pesares que já vivi. Pretendo continuar assim, chorando sempre que sentir vontade, não importando onde eu esteja, e dando gargalhadas quando qualquer coisa fizer minha alma vibrar de alegria.

Hoje  lembrei do Júlio conversando com uma vizinha que está sempre triste. Contei pra ela a mesma história e no final da nossa conversa ela sorriu, agradeceu com um abraço e me deu um pedaço de bolo de chocolate.

Quem sabe alguém aí também está precisando de uma dose de alegria gratuita?

Sorrisos achocolatados meus, pra todos vocês!

[ Dulce Miller ]

*Na foto, é a minha sobrinha Bianca, toda suja e feliz, com um chocolate que a tia maluca (eu) deu pra ela se lambuzar de propósito só pra poder fazer a foto! 

Texto originalmente publicado no site Retratos da Alma
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