Ostras felizes, criam pérolas raras!

24/07/2013

"Feche seus olhos e abra seu coração" =  Leia  e escreva com os olhos da alma!

"A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: “Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…“Ostras felizes não fazem pérolas”… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída… Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade."


Escrever, conforme a Wikipédia: Escrita ou grafia consiste na utilização de sinais (símbolos) para exprimir as ideias humanas. A grafia é uma tecnologia de comunicação, historicamente criada e desenvolvida na sociedade humana, e basicamente consiste em registrar marcas em um suporte.

Desde criança, eu tento escrever porque gosto, parece simples, mas não é. Quem pode dizer que é feliz o tempo todo, a ponto de não ser capaz de escrever algo que venha das profundezas da sua alma? Eu entendo perfeitamente Rubem Alves usando a ostra como exemplo. Nas fases mais criativas da minha vida, eu estava literalmente com os pés na lama, pedindo socorro com a ponta dos dedos no teclado do computador, com um bloco de notas acompanhado de caneta ou até escrevendo no celular, em qualquer hora, em todo lugar. 

O ato de escrever tristezas sempre foi uma salvação, um desengasgar preso no peito onde vomitar palavras era mais que necessário. E então fiz pérolas embebidas pela dor. Pérolas essas, mais belas escondidas, assim não fazem reviver o sofrimento que as criou...

Ou não. Pode ajudar a quem lê. E eu sei de muitos casos (através dos comentários aqui no blog), que algumas pessoas se identificaram e até me agradeceram pelo que minha dor escrevia como que traduzindo o que ia na alma delas.

Agora, quando "a dor aparece com aquela coceira que tem o nome de curiosidade" não é difícil tentar produzir pérolas legítimas, especialmente quando a dor é 'do outro'. É quando você tem a capacidade de penetrar com sensibilidade no sentimento de um amigo ou até sobre algo que ouviu no rádio ou viu pela TV... ou de ver 'coisas' enquanto anda pelas ruas, situações que aguçam seu lado investigativo, se é que posso chamar assim. É como uma câmera fotográfica na memória que em vez de produzir fotografia, cria estórias, registrando histórias - crônicas, contos e até livros que são pura 'ficção da realidade'.

As estórias mais bonitas que eu já li, são densas, pesadas, tão carregadas de emoção que foram capazes de me fazer abraçar o livro e chorar. Como exemplo, posso citar com louvor "Crime & Castigo" do Dostoiévski, "Cem anos de solidão" do Gabriel García Márquez, o "O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, o fantástico "Meu nome é vermelho" do Orhan Pamuk ... mas por outro lado, li estórias magicamente divertidas, muito engraçadas, como quando viajava lendo num ônibus e tive que guardar o livro pra não bancar a louca rindo sozinha, já que não havia ninguém sentado no banco ao lado do meu. Este fato aconteceu duas vezes - com o livro da Claudia Tajes no divertidíssimo "Dez (Quase) Amores" e com o "Concerto Para Paixão e Desatino", do quase desconhecido, mas excelente escritor, Moacir Japiassu - temos aí um exemplo de ostras felizes, que produziram pérolas raras.

Inventar estórias é como dar um drible na ostra. É fazer do ato de escrever algo que faz parte do corpo inteiro e não somente da alma.

[Dulce Miller]

imagem daqui e daqui
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