Fragmentos de Ana Jácomo

08/01/2014


Lembrar com amor é oferecer, no coração, um sorriso que se expande. É um jeito instantâneo e poderoso de prece. É um modo de abraço, não importa o aparente tamanho da distância, nem as enganosas cercas do tempo. Lembrar com amor é levar a vida, no exato instante da lembrança, ao lugar onde a outra vida está e plantar uma nova muda de ternura por lá.

Às vezes eu tenho a impressão de que alguns sorrisos são ondas que começam no coração, brincam de sol nos olhos e, instantaneamente, levam clarão para a boca, para o rosto todo, para a vida inteirinha.

De vez em quando, surge um vento mais forte e fecha as janelas pelo lado de fora.Quando acontece, é bobagem tentar brigar com o vento.A gente espera ele esvaziar e reabre as janelas pelo lado de dentro.

O amor não correspondido capaz de mais nos ferir é o que a vida nos dedica e nem sempre retribuímos. Chega uma hora em que ela cansa, com razão, de amar sozinha.

Encontros preciosos não são necessariamente os que nos trazem jardins já floridos. São, um bocado de vezes, aqueles que nos ofertam mudas.

Às vezes pode parecer muito, mas arriscar um único passo, talvez o primeiro deles, além do território do medo de avançar pode ser a coragem que convida os outros passos todos. Com medo e tudo.



A vida, bordadeira de surpresas bonitas que também é, de vez em quando borda no tecido do caminho da gente umas histórias aparentemente sem pé nem cabeça, mas com muito coração. E é o coração que pode encontrar importância no significado do bordado. Reverenciar a mestria, a ternura, o requinte do humor da bordadeira. A sua perspicácia. A sua visão amorosa. Sentir a qualidade de textura dos fios de sabedoria que ela usou para bordar a surpresa. É o coração. Não, necessariamente, a circunstância.

Ilusão: um lugar de areia movediça pra alma, onde a gente pisa jurando que é jardim.

Se, por medo da frustração, a gente esquece os sonhos mais preciosos que tem e não espalha ações pelo caminho com a intenção de realizá-los, como eles podem lembrar que a gente existe?

Costumo acreditar que, em grande parte das circunstâncias, por mais incrível que às vezes pareça, o outro está fazendo o melhor que pode e se não faz mais é porque, embora queira, ainda não consegue. Acredito nisso porque costumo lembrar que, em grande parte das circunstâncias, por mais incrível que às vezes pareça, faço o melhor que posso e se não faço mais é porque, embora eu queira, ainda não consigo. Generosidade é também questão de memória.

 

 Às vezes é preciso diminuir a barulheira, parar de fazer perguntas, parar de imaginar respostas, aquietar um pouco a vida para simplesmente deixar o coração nos contar o que sabe. E ele conta. Com a calma e a clareza que tem.

Amigo, obra-prima que conta o milagre que acontece toda vez que a vida arruma um modo para aproximar as almas irmãs. Buquê de risos desarmados, olhares que ouvem, abraços que dizem. Árvore frondosa e a sombra dela, onde podemos descansar um pouco, ouvir o canto bom de um passarinho e outro, sorrir para a folha que sabe dançar mesmo quando cai. Lugar de azul macio quando faz sol no coração da gente e quando as chuvas mais fortes alagam nossos olhos. Canção feita de acordes que acordam belezas que às vezes demoram à beça para cantar de novo. Uma ideia feliz do quanto o amor é pura arte.


Twitter: @Ana_Jacomo


Meu nome todo é Ana Cláudia Saldanha Jácomo. Nasci no Rio de Janeiro, onde moro, na madrugada chuvosa de uma segunda-feira de março. Coincidência ou não, é de madrugada que meus textos costumam nascer. Quando isso acontece é como se fosse manhã de céu azul altas horas da noite. Escrever é o meu trabalho mais lúdico. Meu jeito preferido de prece. Minha maneira predileta de levar o coração pra pegar sol.


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