Fragmentos de Paulo Eduardo da Rocha @paulomujica

25/03/2014


Imagem de Paulo Pedras

Informo à saudade, que sou esquecimento. Alheio a sua má vontade, me deixo levar pelo vento.


Imunidades

Às leis, nem todos
estão ou são sujeitos.
Existem tantos engodos,
e, tanto quanto, suspeitos.

Dentre os marginais,
uns, têm suas imunidades.
Alguns, menores, colegiais.
Outros, por terem autoridades.

Há os que têm a parlamentar
e, isso, é privilégio para poucos.
Já, eu, tenho imunidade hospitalar.
Vivo livre, em meio aos demais loucos.



Eu não sussurro. As palavras é que costumam andar agachadas para que apenas teus olhos as ouçam.


Loucas Aventuras

O que é essa loucura
que chega às raias da ternura,
como se fosse passear num jardim?

Longe de ser frescura,
toma a forma de uma aventura
que parece não ter início, meio ou fim.

Qual a real temperatura
necessária para alcançar a fervura
que irá cozinhar o que estivermos afim?

Por certo, eu não tenho cura.
Por louca, tu não completas a mistura.
Ficas superficial sobre o pão, feito gergelim.

Quem irá nos responder à altura,
alternativas para essa tamanha lonjura
que nos mantém tão distantes, irreais assim?

Não há alquimia nesta minha procura.
Nem, tampouco, vais empenhar qualquer jura.
Façamos de conta que tenho a ti e que tens a mim.



Assim, seguimos, para não perder o costume, de acordo como nos permitimos. Apagamos e acendemos, feito vaga-lume.



Amor e Sentidos

Sei que o amor
não é uma ciência.
Seja lá o que ele for,
pode ser uma freqüência.

Enquanto te banhas nua,
eu observo o céu, ao relento.
Penso em nós num banho de lua.
Quisera, tenhamos um só pensamento.

Assim como faz muito bem 
observar as estrelas no infinito,
quero saber, muito mais que além,
que chegue aos teus sentidos o meu rito.

Deixemos, então, o dia nascer.
Ele se encarregará de ler a nós dois.
De pouco adianta as emoções esconder.
O melhor do presente nunca fica pra depois.


Embora não sejam como bens duráveis, pessoas é que mais facilmente se tornam descartáveis.



Outros Quereres

Quero, além do teu sorriso,
toda tua alegria e teu fascínio.
Sem, com isso, ter o teu domínio.

Quero, a cada dia, sem aviso,
lembrar-te do quanto és importante
para que o meu viver seja tão mutante.

Quero, quando me sentir indeciso,
ter o toque de teu carinho e conforto.
Aí, me sentirei mais seguro, menos absorto. 

Quero, até mesmo por que, priorizo,
estar atento à tua menor angústia ou medo.
Entre nós, não há de existir nenhum segredo.

Quero, que, ao teu menor improviso,
eu saiba traduzir o que venha a dizer o teu olhar.
Assim, será completa a conjugação do verbo amar.

Quero, na medida em que também preciso,
dar-te a liberdade necessária para que te sintas viva.
Para que, enfim, sejamos um ao outro, a melhor alternativa.


Quando a chuva cair, eu quero é estar contigo. Correremos pela rua a sorrir, sem pressa, a procura de abrigo.


A Bela Decidida

Eu poderia estar acreditando
que a minha vida me basta.
Mas, ela é só um vendaval que me arrasta.

Nas noites de festa, no espelho,
feito louca, de tantas roupas me visto.
Em nenhuma delas me acho. Ainda assim, insisto.

Por me encontrar perdida,
eu preciso novamente me iludir.
Sei que, ao menos em meu labirinto, posso sorrir.

Não me acorde na manhã seguinte se,
ao dormir, eu não me sentir feliz.
No sono é que me arrependo daquilo que eu não fiz.



Na sua romântica ação, o tolo poeta não imaginava, que o ser humano se encontrava em pleno processo de desertificação.



Solidão de Amor no Mar

Nem mesmo os ventos
das mais sábias inspirações,
me trarão de volta os momentos
em que se fundiam nossas paixões.

Ficou para trás mais um verão.
Outro outono desfolha meu peito.
Será um novo inverno de fria solidão.
Porém, a primavera me encontrará refeito.

Por mais que eu saiba que amar é humano,
insistir no amor, me parece uma tola pieguice.
Ainda que eu te ame, não posso incorrer no engano
de esquecer as bobagens que a tua boca, oca, me disse.

Vou deixar minha vida estendida, no sal, ao sol.
Já que não quisestes ser a minha soberana e linda ilha,
não serei entrave no mar do teu viver, assim, como um atol.
Sou já um leão marinho que, na tua areia, não deixa mais trilha.



Convém mais ter alguma perspectiva do que se deixar perder por uma falsa expectativa



Às vezes, temo

Às vezes, temo a solidão
que surge quando eu estou só.
Sem nenhum aviso, ela me dá a mão
e me leva por diante, com frieza e sem dó.

Às vezes, tenho a impressão
de que nada mais me impressiona.
Como se apenas a minha insensível razão,
fosse responsável por aquilo que me aprisiona.

Às vezes, nem mesmo a paixão,
que é o meu mais natural combustível,
é capaz de dar asas à minha frágil imaginação.
Nem sempre, a nós e ao nosso amor, tudo é possível.

Às vezes, penso em ser um diapasão
que possa ajustar todas as coisas ao redor.
No entanto, nem tudo que necessite de afinação,
tende a se transformar, ao meu desejo, em algo melhor.

Às vezes, temo toda essa escuridão
que impede a minha mente de ser mais sã.
Porém, lembro que, a vida é de soma e de subtração.
Por isso, quero mais é somar a partir de cada nova manhã.



Teu sorriso ilumina e lembra de a vida ser boa. Essa tua meiguice de menina, até ao mais descrente abençoa.

Paulo, na foto.

Post publicado originalmente em 25 de setembro de 2010. Republicando agora (mantendo comentários originais) como um tributo ao poet'amigo que faleceu no dia 19.03.2014.


^ Suba