Vida, Morte e Ressurreição.

15/04/2014


Existe uma contradição do modo de vida atual com as necessidades naturais de felicidade do homem. A busca materialista que coloca a lógica racional iluminista como salvadora de caminhos para o bem comum, mesmo provando-se ineficaz, continua em voga. Não é bem visto quem as questiona, no melhor dos casos ganha a alcunha de sonhador e no pior, de alienado. As mudanças só existem se antes sonhadas, se antes nos recusamos a aceitar certas realidades a ponto de queremos mudá-las. Entretanto hoje em dia, a não aceitação da realidade, é vista geralmente como patológica. 

Os buscadores de certezas precisam reformular sua necessidade porque, mesmo as hipóteses cientificas consagradas, surgiram inicialmente de suposições e inegavelmente, de sonhos! Mostrou-nos Einstein que as supostas verdades da ciência devem ser vistas apenas como pretensamente imutáveis, podendo ser substituídas por outras “verdades” a qualquer momento ou nova descoberta. Somos seres complexos e nossa vivência compreende diversas dimensões. 

Não é de se estranhar que a tentativa de mutilação da experiência humana onde o “realismo” tenta destruir os sonhos esteja levando o homem a abandonar sua maior força: a esperança! Somos seres gregários, vivemos em sociedade desde os mais remotos tempos e isso foi nossa força para a sobrevivência por séculos. Tenho a clara visão que é a esperança na amorosidade (o dar, o receber e o compartilhar) que move o homem para o bem comum. 

Quando esta desaparece, resta ao homem como a única maneira de sobreviver emocionalmente, o isolamento dentro do individualismo. O valor das relações que estabelecemos deveria ter como principio principal a própria vida, isso é uma obviedade, mas é notório e assustador como aos poucos estamos caminhando para a morte. A vida “como se” parece tomar conta da humanidade e assim, todos vivem “como se” fossem felizes. 

Como questionar se estão vivendo, buscando e obtendo as coisas que se impõem como valores para atingir a felicidade? Então para sermos considerados sãos e normais devemos nos conformar com a realidade tal como se apresenta? O desejo e o sonho estão destinados aos “desequilibrados” que não se adaptam a essa realidade? Claro que existe a patologia, claro que existe a alienação. Mas ela não está no sonho nem na esperança, está na maneira como vivemos esses sentimentos. 

Temos uma tendência a ignorar as profundidades e complexidades, é mais fácil catalogar, colocar na prateleira empoeirada e seguir em frente sem grandes conflitos. A sociedade atual colocou o sentimento de infelicidade como algo vergonhoso e que deve ser evitados a todo custo (inclusive com medicação ininterrupta). Portanto, a infelicidade, como um dos caminhos para a transformação da realidade, fica impedida de ser vivenciada e transcendida. 

Neste lugar, onde “tudo é permitido” desde que “feliz e prazeroso”, se perpetua a infelicidade de cada um no calar da noite, juntamente com a promessa de um futuro inalterado e sem esperanças. Sob a aparência de liberdade e controle racional da vida, viceja uma permissividade perversa em relação ao próximo e a nós mesmos. A fé encontra seu caminho como a salvadora da esperança. A fé permite esperar contra toda desesperança que há. 

A fé precisa do coração e precisa também da inteligência comprometida que pensa no possível que ainda está no campo do impossível, mas que é passível de existir de forma concreta através da ação. Precisamos ter como ponto de partida a verdade dentro de nós. Precisamos nos aproximar novamente de nossos corações, mesmo que desacostumados e mesmo que doa um pouco. Não há outra maneira. Precisamos marcar um encontro com a coerência da vida de uma forma mais conectada e sensível, pois só ela nós trará a harmonia que buscamos para atingirmos não só o prazer efêmero da vida, mas a felicidade de estarmos vivos.

[ Angela Regina Pilon -  Psicoterapeuta]



^ Suba