Dezoito meses para amar

10/07/2015

“O Amor e Psyché”, óleo sobre tela de William Bouguereau, 1899

“Trago pessoa amada em dezoito meses” — este anúncio de profeta colado no poste da esquina, pode, em breve, estar nos consultórios médicos: pesquisas científicas acabam de descobrir que os homens, em especial, nascem com uma combinação genética que os torna capazes de se apaixonar à primeira vista por uma indistinta mulher. Mas esse sentimento tem prazo de validade: o cortejador tem cerca de 18 meses, ou um ano e meio, para seduzir a respectiva. Caso contrário, os laços entre ambos não se solidificarão.

Em tempos tão escassos de amantes trocando olhares, especialmente quando se conhecem no mundo virtual, é bom saber que o amor romântico está em alta, mesmo que a referida pesquisa ainda esteja em curso na Europa.

O problema, se é que para muitos isso é um problema, é que os estudos apontam apenas para a paixão, e não para o amor. E aí o buraco é mais embaixo.

Aliás, nem é de hoje. O escritor francês Stendhal, no longínquo século 19, já citava em seu livro De l’amour uma palavrinha mágica: “cristalização”. Somente as pessoas que estiverem dispostas a cristalizar um sentimento, mesmo depois que o coração pare de bater mais rápido, o frisson termine e o frio na espinha acabe, podem se dar, segundo o escritor, a chance de amar. Ora, Stendhal defende que é exatamente no ponto em que grande parte dos casais acha que já está tudo terminado, e quer partir para outro relacionamento, que se perde a grande oportunidade do amor, de se cristalizar um sentimento muito mais forte que a efêmera paixão, genuíno e duradouro.

No romance Tristão e Isolda existem duas mulheres, a Isolda do Castelo e a Isolda das Mãos Brancas. Enquanto esta última é, alegoricamente, aquela mulher perfeita e maravilhosa, que temos de nos contentar em levar em silêncio dentro do peito até o final de nossos dias, a outra, Isolda do Castelo, é a mulher real, com defeitos e virtudes, que passa de tempos em tempos por nossas vidas mundanas e com quem podemos manter uma relação feliz e não perecível.

Mais para a contemporaneidade, também encontramos na literatura do “imortal” Autran Dourado, em Confissões de Narciso, a história de um casanova que conquista uma mulher atrás da outra e só no final do livro descobre — ou redescobre, se o leitor assim preferir — o amor genuíno. O livro foi publicado em meados do século 20, mas, mesmo assim, trata do tempo do amor da Renascença, em que o coração é associado às artimanhas de Cupido e não a um órgão anatômico do corpo humano.

A conclusão que podemos tirar, sem a pretensão de esgotar o assunto, é que séculos depois de Stendhal, e mesmo com as descobertas recentes da Medicina, ainda não sabemos, ou melhor, poucos de nós sabem valorizar o equilíbrio de uma relação mais estável como o amor; e reconhecer que a estabilidade de tal sentimento traz um contentamento maior e mais definitivo do que dar cabeçadas na parede atrás da próxima ilusão amorosa, a danada da paixão, que acontece à primeira vista, literalmente. Ou seja, no quinto de segundo de uma piscadela. Pena que este sentimento vá embora quase tão rápido quanto chega.


Crônica de Eduardo Minc. 
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